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Zibaldone

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12
Mai17

Fátima

Francisco Freima

santuário de Fátima.jpgO que aconteceu há 100 anos na Cova de Santa Iria continua a ser alvo de especulações. Como quase todos os portugueses, tenho a minha opinião acerca dos dias 13.

 

Em Maio de 1917, a I República estava no seu sétimo ano de vida. Nesses primeiros tempos, os grandes marcos foram a laicização do Estado e a entrada na I Guerra Mundial. A laicização levou a uma perseguição da Companhia de Jesus ao nível daquela movida pelo Marquês de Pombal no século XVIII. O anticlericalismo de Afonso Costa (a quem se atribui a frase de que acabaria com o Catolicismo em duas gerações) logo despertou a reacção da Igreja, que a 10 de Julho de 1913 lançou o Apelo de Santarém. Convém referir que este Apelo estaria na génese do Centro Católico Português, incubadora para muitos políticos do Estado Novo (Salazar incluído).

 

É neste ambiente de declarada animosidade que Portugal entra na I Guerra Mundial. O objectivo seria travar a utilização das colónias portuguesas como moeda de troca num possível acordo entre as potências beligerantes, além do acesso ao crédito em melhores condições. Alheio a estas considerações, o povo não percebia o porquê de um país periférico ter forçado a entrada na guerra. Certo é que foi graças a essa entrada, muito a contragosto da Inglaterra, que se atenuaram os efeitos do conflito: entre 1916 e 1918, a situação económica do país era bem melhor do que aquela vivida entre 1914 e 1916. Porém, a sobrevivência implicou custos elevados em termos sociais: inflação, colapso do Corpo Expedicionário Português, insatisfação popular e ascensão de Sidónio Pais à chefia do Governo. No meio disto tudo, surge a Gripe Espanhola em 1918. Em 1919, Paiva Couceiro entra em território nacional através da Galiza, proclamando a Monarquia do Norte (ou Reino da Traulitânia, para os republicanos). 

 

Como se vê, o Portugal da altura era terreno fértil para o reavivar da consciência messiânica do povo. Basta ler as Memórias de Raul Brandão, que ocasionalmente descrevem esses santos de província, para perceber o contexto de intensa religiosidade. Sobretudo no Norte, onde a queda da monarquia e a perseguição aos Jesuítas ganhou tons apocalípticos, permitindo ao clero fomentar uma mentalidade de cerco. No fundo, realizava-se a verdadeira transição do século XIX para o século XX – o Portugal rural desse tempo não distava muito do país existente no reinado de D. Maria II. Entre 1817 e 1917, o único acontecimento que perturbara a paz dos campos fora mesmo a Lei dos Cemitérios...

 

O «milagre» de Fátima surge então como a resposta da Igreja. Instrumentalizando os três pastorinhos e as suas famílias, o clero, que a princípio tratou o caso com a normalidade devida à histeria das suas prédicas, depressa percebeu que chegara o momento de soprar os ventos da contra-revolução. O destino das crianças era indiferente: duas morreram convenientemente e a outra foi encerrada num convento para o resto da vida. O único milagre na Cova de Santa Iria foi o facto de Portugal ter assistido à primeira campanha mediática da sua história, um golpe de propaganda que lançou as sementes das quais o Estado Novo haveria de colher os frutos: o anti-comunismo primário e uma temerosa reverência às autoridades eclesiásticas, alinhadas com a ditadura. Não por acaso, o culto mariano só começa a ganhar expressão após a entrada em cena dos fascistas – já agora, não deixa de ser curioso como a Nossa Senhora «previu» a queda da URSS (e já muito depois de ter caído), mas nem uma palavra teve para o Holocausto, nem tampouco para o advento do regime salazarista daí a uns anos...

 

Ainda assim, prefiro Fátima às peregrinações a Meca, onde geralmente alguém morre espezinhado.

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