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Zibaldone

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06
Jun17

Folia do surf

Francisco Freima

Ser escritor em Portugal é uma vocação destinada ao fracasso. Em Óbidos, parece que ficaram fartos de literatura e desviaram as verbas do FOLIO (Festival Literário Internacional de Óbidos) para o surf. Compreende-se: basta olhar para Carlos Zorrinho, a figura mais eminente da vila, para imaginar os corruptos por metro quadrado.

 

Neste caixão à beira-mar flutuando só há espaço para a mediocridade, daí que seja mais seguro financiar em Óbitos umas pranchas aos "radicais" subsídio-dependentes do que um evento onde se discutem ideias. Além de que é ano de eleições e, como sabemos, os Portugueses adoram praia. Qualquer dia mais vale meterem o Daniel Jonas ou o Afonso Cruz em cima de uma prancha, certamente as palmas da carneirada compensarão a admiração dos poucos indivíduos que ainda se dão ao trabalho de ler as suas obras. Proponho igualmente tiragens máximas de dois exemplares, um para o autor e outro para a biblioteca lá da terra... sempre se poupa no papel, que a malta é toda ecológica e o zen não está do lado dos escribas, mas sim dos surfistas.

 

Há vários anos que Portugal vem fazendo um lento mas persistente trabalho no extermínio da literatura. Não há arte mais perseguida neste país pelo poder político ou mais acossada pela falta de meios. Os músicos choram: têm 30 000 programas na TV e dão entrevistas em todos os jornais. Os dançarinos esperneiam: mais uma resma de programas, que aqui praticamente só cantamos e dançamos. Livros? Zero: um boletim de 10 minutos enfiado na grelha da madrugada, ou o último fôlego de um "cartaz cultural" onde as notícias principais são os concertos das estrelas pop do momento. Em Portugal, até os humoristas e os cozinheiros são mais reconhecidos do que os escritores. 

 

Este cerco aos escritores em geral e aos poetas em particular não vem de agora. Trata-se de uma tentativa de neutralizar o original através da cópia, porque um Rimbaud, um Wojaczek ou um Pound são mil vezes mais subversivos do que os mais subversivos das outras artes. Ontem falava na falta que faz um Axl Rose na música, mas hoje digo que o que faz mesmo falta é um Céline na literatura.

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