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Zibaldone

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11
Nov16

Follow Friday #4

Francisco Freima

Dia de Follow Friday! Hoje, a minha escolha recai na NES e no seu O Cenáculo, um blogue que se dedica a escrutinar Eça de Queiroz. Às quartas-feiras temos assim direito à abertura de um portal que nos coloca no século XIX, estejamos nós na faculdade, no autocarro a receber uma mensagem ou a indagar sobre as relações LGBT na obra queirosiana. Como presente, fica uma transcrição das Memórias de Raul Brandão, na qual Eça aparece retratado num contexto mais familiar:

  

«Na Correspondência aparece-nos outro Eça. Deixou cair o monóculo. É uma figura admirável de simplicidade e de humanidade. Eis alguns traços contados pelo filho:

 

"Meu pai era infantil. Um dia, deram-nos um comboio que corria sobre railes e entrava e saía dos túneis, como um comboio verdadeiro. Pois de manhã fomos encontrá-lo no jardim, de pijama, entusiasmado, a correr atrás do comboio, agitando os braços quando a máquina saía do túnel e apitava nas subidas. A sua grande alegria era ir connosco para o bosque de Neuilly. À frente marchava meu pai, de bicicleta – uma daquelas bicicletas antigas e enormes, a que se ligava um cesto com rodas. No cesto ia um meu irmão. Atrás, outra bicicleta com os amigos, esbaforidos, e meus irmãos mais pequenos. Era o primeiro nos cavalos de pau ou nas montanhas-russas, da feira.

 

Raro saía de casa. Levantava-se ao meio-dia, vestindo-se meticulosamente, como se tivesse de fazer visitas. Trabalhava de pé – sentando-se, dizia ele que perdia a imaginação – no meio da balbúrdia e do barulho que fazíamos, entre interrupções e gritos. Escrevia até muito tarde – duas, três horas da manhã. Nunca saía. Às vezes havia uma festa oficial: mandava lá um empregado do consulado, pregando-lhe a legião de honra na botoeira. Os amigos faziam-lhe constantemente partidas infantis. Duma vez encheram-lhe a casa de cobras, inofensivas, e doutra vimos, com espanto, avançarem pelas salas dentro três antigos chapéus altos! Era que eles tinham metido três papagaios dentro de velhos penantes comprados num ferro-velho.

 

Todos os portugueses lhe batiam à porta: o José de Figueiredo, que, com grande admiração de minha mãe, levava o jantar consigo; o António Nobre, o Alberto d'Oliveira e outros, que recebia sempre com simpatia. Era muito supersticioso; às sextas-feiras e nos dias treze, ninguém o arrancava de casa. Tinha medo aos fantasmas e aos agouros. Doente, no fim da vida, quase se sustentava de água de Évian. Mas, de quando em quando, saía com um amigo, e não resistia à salada de lagosta, ou a qualquer outra petisqueira que lhe fazia mal. Seguiam-se dias de sofrimento. Foi talvez por isto que não conseguiu curar-se, embora voltasse à água de Évian – para, gemendo, voltar ao pecado de gula... Nos seus tempos de Cuba, amou uma americana, e por causa dela viajou nos Estados Unidos. Dessa época devem existir, não sei onde, cartas interessantíssimas, de amor... Talvez o melhor, o mais belo da sua obra."

 

E o Batalha Reis faz surgir diante de mim outro Eça, o Eça rapaz, quando dormia no mesmo quarto com ele, num colchão no chão, e em camisa, fazia charges endiabradas, embrulhado num lençol, esgrouviado, de braços e pernas como linhas e monóculo no olho.»

 

Raul Brandão, Memórias (vol. I, tomo III), 189-90; Relógio d'Água

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