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Zibaldone

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06
Fev17

Grande Barreto

Francisco Freima

Kwa Na Kwa.jpegContar parte da história é sempre um exercício divertido, sobretudo quando pelo meio ainda se consegue fazer algum revisionismo. Nos últimos tempos, o grande Barreto tem prosperado neste género, tendo sido um dos pioneiros da era da pós-verdade. Se não consigo subir à altura desse glorioso muro, saúdo ao menos o homem que, após tantos anos de artigos a garatujar qualquer ideia incompreensível, assume-se afinal como arauto da direita.

 

No seu espaço de opinião no DN (com o apropriado título de Sem Emenda), o antigo ministro atirou-se ontem contra a Revolução de Outubro, fazendo suas as palavras de outro batráquio, que a cunhou de Grande Embuste. Eis a experiência soviética na versão resumida de Barreto:

 

Após aquele ano de "revolução", houve outros cinco, ditos de "guerra civil", revolução para todos os efeitos. Depois, mais vinte de depuração, deportação, limpeza étnica, colectivização e trabalhos forçados aos milhões. Sem esquecer milhares de julgamentos e execuções de políticos, generais, médicos, sindicalistas e escritores! Lenine morre em 1924 e Estaline em 1953. Até à derrota final, em 1989, entre lutas intestinas e saneamentos, sucedem-lhes vários como Kruchtchev, Brejnev, Andropov, Chernenko e Gorbachev.

 

Juro que para mim estas pessoas são incompreensíveis. Se tivesse sido alguém que foi de direita toda a vida, ainda compreendia. Mas um antigo militante comunista? Oh, Barreto, explica-me lá, por favor: tu nasceste em 1942, logo, por altura da morte de Estaline tinhas 11 anos. Nessa época, Nikita Kruschev dedicou-se a denunciar os crimes do seu antecessor, denúncias que ecoaram fortemente em Portugal, ou não fosse o nosso país à época um baluarte anti-comunista. Os artigos dos jornais durante sete anos ganharam algum pó, mas não acredito que um jovem de 18 anos, prestes a entrar no PCP, desconhecesse essa realidade. Então, diz-me: que moral tens tu para falar das depurações, das limpezas étnicas, das colectivizações, dos trabalhos forçados, se tu mesmo, ao entrares no PCP, foste cúmplice dessas práticas? Que necessidade é esta dos antigos homens e mulheres de esquerda fazerem uma permanente auto-crítica em relação ao seu passado? Será que a Maria manda-te para o sofá se não realizares o exercício semanal de auto-flagelação?

 

Outra pérola:

 

Que nos deixou o comunismo como legado social e económico, tecnológico e científico? Uma enorme ficção daquele que poderia ser, com os seus colossais recursos, um dos mais ricos países na Terra e que acabou por só ser poderoso militarmente, mas incapaz de progredir economicamente e de permitir a prosperidade dos seus cidadãos, impotente para o desenvolvimento tecnológico e científico, áreas em que esteve sempre atrás dos países ocidentais e com atrasos crescentes até ao desmoronamento final.

 

Esteve sempre atrás dos países ocidentais?? Sim, e o Sputnik foi fabricado pela NASA e o Yuri Gagarin nasceu no Harlem. O Futurismo Russo, dinamizado por Vladimir Maiakóvski, notório militante comunista, também não influenciou nenhuma obra de arte, muito menos músicos ocidentais, como Caetano Veloso... mas o que é a arte para um homem de direita? Como legado social, a URSS deixou as suas políticas de pleno emprego e de assistência social, logo copiadas (e bem) pelas sociais-democracias europeias. Não há serviço nacional de saúde ou sistema de pensões que não descenda da experiência socialista vivida na URSS. Quanto àquele que «poderia ser, com os seus colossais recursos, um dos mais ricos países na Terra», o Barreto tem razão. Em 72 anos, a União Soviética tinha obrigação de atingir esses níveis de prosperidade, até porque recebeu um país tão atrasado em tudo, que mais parecia acabado de sair da Idade Média do que da Revolução Industrial. Em 72 anos, a URSS galgou eras históricas, passou de um regime feudal para uma super-potência militar e industrial. Sim, Barreto, porque ninguém é só poderoso militarmente quando adopta políticas proteccionistas, pois também tem de criar e produzir todo o seu armamento... a não ser que tu acredites que lá para as estepes existiam Kalashnikoveiras e MIGeiras que davam metralhadoras e aviões, ou tanques modelo T (não, Barreto, não são de lavar roupa nem foram fabricados pela Ford) que vinham nos bicos das cegonhas. Já agora: não achas engraçado que em apenas 30 anos um país saído das trevas tenha fabricado uma bomba nuclear, enquanto o Estado Novo ultrapassou as quatro décadas sem chegar lá perto? Recursos não faltavam, e certamente teria dado jeito para dissuadir a União Indiana de invadir as nossas possessões, ou para refrear o envolvimento da própria URSS na Guerra Colonial. Mais: a Rússia saída desse «pesadelo comunista» está quase a fazer 30 anos. Se contabilizarmos a herança que recebeu com aquela que a URSS recebera da Rússia czarista, estes 30 anos valeriam o dobro. Mas pronto, ficamo-nos pelos trinta... então, não perguntas? Vá, eu ajudo:

 

Que nos tem deixado o capitalismo russo como legado social e económico, tecnológico e científico?

 

Absolutamente nada. Ou melhor: regressão demográfica, aumento da criminalidade, operações de bandeira falsa contra a sua população, guerras, ataques contra minorias étnicas, desregulação financeira, precariedade laboral, corrupção, prostituição, desemprego, máfias, hooligans, oligarquias, perseguições e assassinatos de opositores políticos... em suma, o Paraíso na Terra.

 

Por último, se o PCP é um sinal do nosso atraso, já que pelos vistos só tem a companhia dos seus congéneres norte-coreano e cubano (Angola deve ficar noutra galáxia), os partidos sociais-democratas, existentes em países tão avançados como o Burundi e a Libéria, têm garantido níveis de prosperidade invejáveis aos seus cidadãos. E que dizer do Kwa Na Kwa, o equivalente ao nosso PSD na República Centro-Africana? Que era o partido do ditador François Bozizé, e que a República Centro-Africana costuma figurar no topo dos países mais pobres do mundo... ah, e que é o responsável pela dita «guerra civil» que por lá tem lavrado desde 2012... há cinco anos, portanto.

 

P.S. - Confirma-se o disparate feito pelo DN. Afinal, o colunista que não servia para ombrear com invertebrados como António Barreto arranjou poiso no Observador. Já aqui escrevi que respeito Alberto Gonçalves, e apesar de ter ideias diametralmente opostas às minhas, fiquei contente com o seu regresso.

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