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Zibaldone

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25
Mai16

Greve dos estivadores

Francisco Freima

Foto de Anabela Góis Rádio Renascença.jpgNuma época de baixos salários, precariedade e desemprego, os estivadores do Porto de Lisboa têm servido para expiar as frustrações da pátria. Embora perceba o sofrimento, fico triste pela forma como alinhamos no discurso dos patrões, que aumentam lucros à custa do suor alheio. A maior parte acusa os estivadores de ganharem bem, de não terem motivos para fazer greve, de serem uns privilegiados ou uma máfia sindicalizada. Preferem concentrar-se no abate de uma árvore frondosa em vez de olharem para a floresta queimada.

 

De resto, não é novidade. A fúria contra as 35 horas na função pública evidencia essa mesquinhez: em vez de se sentirem esperançados por verem o Estado reduzir o horário laboral, remoem a injustiça. Mais uma vez, compreendo que um trabalhador do privado tenha dificuldade em aceitar, mas a verdade é que a mesma medida traduz a vontade de estender o «privilégio» aos trabalhadores do privado. Pode demorar, mas a luta por melhores condições é um processo dinâmico, feito de avanços e recuos. Claro que a existência de um movimento sindical forte ajuda, como se tem visto no caso dos funcionários públicos e dos estivadores. No privado, os sindicatos acabam por ter menos força, seja pela oposição dos patrões, seja pela inércia dos trabalhadores. Assim, é natural que existam vanguardas, para as quais devemos olhar como raios de sol num país mergulhado nas trevas. 

 

A luta dos estivadores de Lisboa é pela melhoria das condições dos colegas que são contratados à jorna. É também pela melhoria das condições dos colegas de Sines e de Matosinhos, onde o movimento sindical é fraco ou inexistente. Aparecerem como os únicos culpados da greve, reflecte a mesquinhez do país. Existem pessoas que nem conseguem compreender o porquê deles continuarem a greve, já que estão a colocar em risco os seus postos e os seus «brutos salários». Mas se eles arriscam os lugares é porque sentem que as conquistas alcançadas estão em causa e que, quando saírem de cena, a precariedade voltará a ser a norma. A manter-se esta situação, daqui a uns anos olharemos para estes como a época dourada da estiva em Lisboa e lamentaremos o pouco apoio prestado, numa altura em que se decide o nosso futuro. Sim, porque a luta deles é a nossa, é a luta entre o país com condições decentes de trabalho contra o país dos contratados ao dia. É a luta entre a Escandinávia, que tantas vezes enche a boca dos políticos, e o Sudeste Asiático. Entre Lisboa e Leixões.

 

Isto numa semana em que os arautos do «não há dinheiro» tiveram de engolir as diferenças salariais entre gestores e trabalhadores. Defenderam-se com a diferença ao nível das habilitações, quando todos sabemos que na base já existem muitos funcionários com licenciaturas e mestrados a trabalharem por uma ninharia. Muitos deles mais capacitados para assumirem cargos de topo do que os «cunhados» e «filhos do papá». A desigualdade em Portugal é o principal obstáculo ao desenvolvimento do país, mas não aquela que deriva das 35 horas no público contra as 40 no privado, ou do salário dos estivadores em relação aos demais trabalhadores. Essas são polémicas alimentadas por quem quer virar o privado contra o público, os trabalhadores contra os trabalhadores. A desigualdade está naqueles que ganham ordenados 30 a 90 vezes superiores ao ordenado médio dos seus empregados súbditos.

 

Deixo-vos com uma reportagem do Público realizada em 2012, que explica muitos dos actuais problemas nos portos nacionais.

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