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Zibaldone

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10
Abr17

Joaquim Meirim

Francisco Freima

Ontem, o Amora bateu o Pescadores da Costa da Caparica por claros 9-1. As pessoas chamam-me louco quando digo que os meus três sonhos no futebol são ver o Amora na I Divisão Nacional, o Belenenses vencer um campeonato e o Benfica ganhar uma Liga dos Campeões. A verdade é que todas estas coisas já aconteceram, por isso...

 

Por isso nada como recordar Joaquim Meirim, um treinador que revolucionou o futebol português nas décadas de 60 e 70. Conhecido pelas metodologias de treino inovadoras, Meirim foi igualmente o precursor dos mind games de José Mourinho. Quando chegou ao Belenenses, após uma sensacional passagem pela Póvoa (levou o modesto Varzim ao 6º lugar), declarou logo ao que vinha: com ele, o Belém iria ser campeão. Não foi, na realidade até acabou despedido, mas isso foi o menos. Durante as 18 jornadas em que treinou a equipa, o estilo de Meirim trouxe mais público ao estádio e fez incidir os holofotes sobre os azuis do Restelo, pouco acostumados a serem o centro das atenções. Efectivamente, o emblema da Cruz de Cristo vivia uma época de refluxo após as décadas de 40 e 50, quando chegou a ameaçar o domínio dos três grandes. A passagem menos feliz por Belém marcou o início da fase descendente da sua carreira, sobretudo porque era bastante malvisto pelos dirigentes desportivos. É que Meirim, além de ser um treinador talentoso, era um homem de ideais. Comunista convicto, foi candidato da FEPU (Frente Eleitoral Povo Unido) à presidência da Câmara de Matosinhos. Na altura orientava o Leixões, e os dirigentes só descansaram quando correram com ele do clube, chegando mesmo a agredi-lo. Talvez por isso ainda hoje nenhum treinador seja conhecido pelas suas convicções políticas – tanto Cândido de Oliveira como Meirim pagaram bem caro os seus ideais de esquerda... O vídeo que acompanha este post, realizado em 1970, demonstra que no Restelo já havia uma democracia antes do 25 de Abril.

 

O impacto deste treinador no futebol actual continuaria a ser tremendo, basta imaginar Quim Machado na primeira conferência de imprensa a declarar que iria vencer o campeonato, ou Jorge Jesus a figurar nas listas da CDU às autárquicas. O esquecimento a que foi votado é a prova do exemplo incómodo que ainda representa. Um treinador de futebol não lança arrojadas candidaturas ao título, nem expressa ideais políticos. Um treinador de futebol deve respeitinho ao presidente e de política não pesca nada. Felizmente para Meirim, nem tudo foi mau: o técnico que fazia os jogadores crerem que eram os melhores do mundo viu um clube baptizar-se com o seu nome (Alunos de Meirim Futebol Clube) e foi homenageado com um poema de José Afonso. Corria o ano de 1973; «Zeca» estava preso em Caxias:

 

A  MEIRIM

 

À sombra do que está

Há quem incline a cabeça

Há quem na vertical

Diga que sim não está mal

Minha tia era

Dessa razão

Dizia humilde contrita

Não subas

Ao parapeito de Judas

E o vendilhão era recto

Não pretendia ser mais

Que um funcionário correcto

Pois na Instrução

O César tinha razão

Só não tinha a tia dele

Verdade diga-se

E sede

Da pura apocalíptica

Depois quem lhe fez a cama

Foi um menino de mama

 

José Afonso

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