Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Zibaldone

Zibaldone

06
Set16

José Craveirinha

Francisco Freima

Considerado o poeta maior de Moçambique, José Craveirinha foi um dos grandes impulsionadores da identidade nacional do povo moçambicano. Ainda hoje os seus poemas são facilmente reconhecidos pelo ritmo e pelas rimas imprevistas, muitas vezes dentro da previsibilidade com que vai alimentando a toada lírica, como acontece n' O Grito Negro:

 

Grito Negro

 

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.


Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.


Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.


Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.


Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.

 

José Craveirinha, O Grito Negro

 

A beleza deste poema está na sua extrema musicalidade. A repetição da rima em -ão é explorada dentro de alguns versos, reforçando assim a tessitura sonora dessas palavras agudas. Vejamos a penúltima estrofe:

 

Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.

 

Às cinco rimas em -ão, Craveirinha contrapõe duas no interior do penúltimo e do último verso. Se observarmos mais atentamente, perceberemos ainda melhor o trabalho do poeta. Efectivamente, exploração/maldição encaixam bem em termos sonoros (-ção). Além disso, atentem na palavra alcatrão, a mais importante desta estrofe: ela faz a transição entre a maldição e o patrão. Por um lado, repete a primeira sílaba de maldição (-al), por outro, encaixa perfeitamente a última sílaba de patrão (-trão). Pelo meio, mas menos vigoroso, surge o jogo irmão/não, que explora as subtilezas de sons parecidos, produzindo uma rima rica.

 

Sobre o tema, pouco há a dizer. É um poema que aborda a exploração de um homem por um patrão desumano. As rimas em -ão indicam a fúria latente do oprimido, como se esta fervesse em lume brando, à espera de explodir. O último verso («Eu sou o teu carvão, patrão») guarda algum sarcasmo, pois fica implícito que o sujeito lírico, o carvão que tem que arder na exploração, queimará um dia tudo com o fogo da sua combustão. Até o próprio patrão...

11 comentários

Comentar post

Antiguidades

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D

Bloguista

foto do autor