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Zibaldone

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20
Set16

Kid in the Park

Francisco Freima

Langston Hughes.jpgHoje trago-vos um poema de Langston Hughes, intitulado Kid in the Park:

 

KID IN THE PARK

 

Lonely little question mark

on a bench in the park:

 

See the people passing by?

See the airplanes in the sky?

See the birds

flying home

before

dark?

 

Home's just around

the corner

there -

but not really

everywhere.

 

Regresso muitas vezes a este poema, sobretudo quando ando perdido no meio da vida. À hora que os pássaros escolhem para se recolherem, à luz do poente, refugio-me nestes versos, conduzo uma introspecção que nunca leva a lado nenhum. No fundo, sei que ao ler estou em casa, que este poema já é um estado de alma. Não me peçam grandes análises a ele, geralmente tendo a tornar inefáveis as minhas preferências mais ingénuas. Quando gosto, gosto. Ainda assim, e correndo o risco de o desmistificar, vou analisá-lo.

 

Parece-me que Hughes esculpiu em número três: três estrofes, três repetições, três questões. No início existe logo uma referência implícita ao miúdo («lonely little question»), um ser curioso que grava na madeira de um banco as suas perguntas. A segunda estrofe, mais truncada, apresenta as três repetições e interrogações. Nelas, temos uma maravilhosa passagem do geral para o particular:

 

See the people passing by?

See the airplanes in the sky?

See the birds

flying home

before

dark?

 

«See the people passing by» é demasiado vago em relação ao «see the airplanes in the sky», que define um lugar, o céu. Já o «see the birds» define claramente algo (os passáros) que o poeta quer que goze da nossa exclusiva atenção nesse verso. Porquê? Porque eles, ao contrário das pessoas que passam e dos aviões no céu, têm um propósito definido num tempo definido: voam para casa antes de escurecer. Na terceira estrofe encontramos novamente versos truncados, palavras que devem ser lidas em decrescendo na duração do verso, mas em crescendo na definição do lugar:

 

Home's just around

the corner

there -

 

A palavra around no primeiro verso é bastante mais imprecisa do que corner, que nos remete para uma esquina. There (ali) indica o sítio de um modo lacónico, peremptório e acutilante. A passagem do vago para o exacto é a enumeração do geral para o particular. Cada fracção (around/corner/there) representa um grau de conhecimento diferente. O around é onde vivem pessoas desconhecidas, o corner as pessoas que nos são próximas e o there é o nosso lar. A conclusão, escrita em itálico, é a minha parte preferida do poema, por ser quase impossível de traduzir em palavras:

 

but not really

everywhere.

 

No «but not really/everywhere» reside a consciência de que a nossa casa não pode ser em toda a parte, mas antes num determinado sítio. O miúdo, uma pequena e solitária questão, fez três perguntas e dá esta conclusão: nem tudo o que conhecemos nos é familiar. Podemos ter consciência da sua existência, mas só conheceremos se habitarmos em vez de apenas observarmos. Uma casa vive-se por dentro.

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