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Zibaldone

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29
Abr16

Mário de Sá-Carneiro

Francisco Freima

Mário de Sá-CarneiroO centenário da morte de Mário de Sá-Carneiro foi alvo de alguma atenção por parte da imprensa. Num país que prima pelo esquecimento, a excepção nota-se e é uma pena que tarde em constituir-se como regra. 

 

Passando à poesia propriamente dita, escolhi um poema dos Indícios de Oiro, naquela que considero ser a sua melhor fase: 

 

SALOMÉ 

 

Insónia roxa. A luz a virgular-se em medo,
Luz morta de luar, mais Alma do que a lua...
Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,
Alastra-se pra mim num espasmo de segredo...

 

Tudo é capricho ao seu redor, em sombras fátuas...
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou...
Tenho frio... Alabastro! A minh'alma parou...
E o seu corpo resvala a projectar estátuas...

 

Ela chama-me em Íris. Nimba-se a perder-me,
Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebranto...
Timbres, elmos, punhais... A doida quer morrer-me...

 

Mordoura-se, a chorar - há sexos no seu pranto...
Ergo-me em som, oscilo e parto, e vou arder-me
Na boca imperial que humanizou um Santo...
 
Mário de Sá-Carneiro
 
Soneto luxuriante, marcado pelas sensações, Salomé inspira-se na personagem bíblica que dançou para Herodes Antipas. Como é sabido, a dança fascinou-o tanto que este comprometeu-se a satisfazer qualquer desejo de Salomé. Instigada pela sua mãe, Salomé pediu a cabeça de João Batista. 
 
Feito este parêntesis, para mim neste poema o sujeito alterna a vigília com o sono. Vou mostrar-vos como eu o vejo:
 
Realidade
 
Insónia roxa. A luz a virgular-se em medo,
Luz morta de luar, mais Alma do que a lua...
 
Sonho
 
Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,
Alastra-se pra mim num espasmo de segredo...
Tudo é capricho ao seu redor, em sombras fátuas...
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou...
 
Realidade
 
Tenho frio... Alabastro! A minh'alma parou...
E o seu corpo resvala a projectar estátuas...

 

Nas duas quadras encontramos estes estados alterados da percepção, que posteriormente fundir-se-ão nos tercetos, quando o poeta é chamado por Salomé. Acedendo às suas solicitações, o sujeito lírico decide-se a partir em direcção ao sonho («Ergo-me em som, oscilo e parto, e vou arder-me/Na boca imperial que humanizou um Santo...»). Outra forma de sentirmos o contraste entre o sonho e a realidade são as cores: na realidade predomina o branco enquanto no sonho o esplendor da luz está longe de «virgular-se em medo», como sucede no primeiro verso. Na segunda quadra, Salomé dá a provar ao sujeito lírico o sonho («Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,/Alastra-se pra mim num espasmo de segredo...»), tornando-o dependente. O chamamento feito em Íris é uma referência ao lugar onírico onde Salomé definha enquanto espera uma decisão do autor. Este acaba por escolher o sonho: «Ergo-me em som, oscilo e parto, e vou arder-me/Na boca imperial que humanizou um Santo.» A «boca imperial que humanizou um Santo» parece-me uma referência à ópera de Richard Strauss, na qual Salomé beija João Batista depois de ele ter sido degolado.

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