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Zibaldone

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30
Nov16

Nós somos livres...

Francisco Freima

Cortes de Lamego.jpgParadoxalmente, e apesar de forjadas, as actas das Cortes de Lamego são o de que mais autêntico existe do espírito português na Idade Média. Depois de fazerem «leis da nobreza e da justiça», o procurador do rei, Lourenço Viegas, formula a pergunta fatal:

 

Quereis que o Rei nosso senhor vá às Cortes do Rei de Leão, ou lhe dê tributo, ou a alguma outra pessoa tirando o senhor Papa que confirmou o Reino?

 

A reacção dos nobres é a mais intrépida e apaixonante que se pode imaginar:

 

E todos se levantaram, e tendo as espadas nuas postas em pé disseram:

Nós somos livres, nosso Rei é livre, nossas mãos nos libertaram, o senhor que tal consentir, morra, e se for Rei, não reine, mas perca o senhorio.

 

Tais eram as usanças dos nossos avoengos, hoje caídas no conceito popular. Isto a propósito da reacção dos deputados do Bloco de Esquerda, que não se levantaram nem aplaudiram os reis da Espanha, nem tampouco foram à cerimónia do beija-mão a Suas Majestades. Informando o povo de sucessos tais, os jornalistas, que substituíram os jograis no mister de entreter as massas, asinha deram o imerecido destaque a tão patriótica atitude. O povo, acostumado a ver no ultraje a honra e na justa medida a acção temerária, logo se dispôs à crítica. Que vilões destarte se comportem, não causa espanto, porquanto foi sempre bisonha a sua têmpera. Que os nossos maiores concorram na vassalagem, só merece a estranheza e o repúdio da nação.

 

«O senhor que tal consentir, morra, e se for Rei, não reine, mas perca o senhorio.» Vigorassem as antigas leis do Reino, e o soez atentado não passaria impune. Aos gritos de «Acudam à Liberdade!», o lhano povo, descobrindo a força de outrora, acorreria às galerias do Palácio para dar lei aos que lhe quisessem mal. Na crueza da sua sanha, guardados pola ira, terrível aguilhão das funestas horas, uns seriam jugulados, outros apunhalados, e outros ainda arrastados pola cidade, dados como de comer aos cães. 

 

No fim, quedaria a sentença do preclaro Fernão Lopes, na Crónica de D. João I:

 

E, posto que a algumas pessoas tais cousas parecessem mal e desonestamente feitas, ninguém se atrevia a dizer o contrário.

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