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Zibaldone

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14
Out16

O caso Dylan

Francisco Freima

affaire Dreyfus caricature.jpgO caso Dylan deixou-me em choque. Pode parecer exagerado, mas, para quem respira poesia por todos os poros, a decisão da Academia Sueca foi um duro golpe. A intelectualidade também tem culpas no cartório, nas últimas décadas temos assistido à deserção da maioria para as suas torres de marfim. Este é um velho debate, com origens no caso Dreyfus e que se prolongou até ao polémico livro de Julien Benda, Le Trahison des Clercs. Nele, o francês defendia que os intelectuais haviam traído o espírito do dreyfusismo, ao caucionarem regimes totalitários quando deviam ter mantido a pose do sábio desinteressado, imune aos fragores das batalhas terrenas, apenas preocupado em servir abstractamente a Verdade, a Justiça, a Liberdade...

 

Nunca subscrevi tal tese, considero-a mesmo derrotista. Prefiro mil vezes um André Gide equivocado na sua aventura comunista, um André Breton com um pé no surrealismo e outro no marxismo, um Charles Maurras a agitar as hostes monárquicas, um Georges Bernanos com uma evolução política acidentada... o intelectual tem o dever de combater, de lutar por um ideal. Ora a desmobilização dos intelectuais, ocupados somente a escreverem as suas obras, a frequentarem-se mutuamente, a viverem num círculo fechado, proporcionou o actual estado de coisas. 

 

É necessário rever conceitos, mas têm de ser os artistas a realizar esse debate, não um júri motivado por interesses obscuros. Questionarmos, à luz da contemporaneidade, o que é a poesia, a música, o cinema, eis o desafio. A deixa proporcionada pelo caso Dylan não deve ser desperdiçada: ela permite aos poetas entrarem no mundo da música e disputar público aos que tomaram a dianteira no século passado. Se o conceito de poesia tornou-se flutuante, cabe aos poetas exigirem mais oportunidades na música, desde o lançamento de álbuns até à participação nos grandes festivais. Se a música pode ser poesia, a recitação poderá ser música. 

 

Poetas de todo o mundo: está na hora de sair do gueto, está na hora de lutarmos contra a discriminação!

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