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Zibaldone

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25
Abr17

O dia mais longo IX

Francisco Freima

Francisco Sousa Tavares.jpg«Quando entrei no Quartel, o ambiente que lá existia era de medo e de desejo que aquilo acabasse. As paredes pingavam água, pois os tiros tinham destruído as canalizações do sótão. Falei com o coronel comandante, que não atou nem desatou, protótipo do velho coronel "o que é preciso é flutuar". Entretanto, estão a terminar os quinze minutos e eu volto para marcar novo período.

 

Quando regressei ao Quartel, dirigi-me ao comandante e disse-lhe que, se ele não mandava, então eu queria falar com quem mandasse. Conduziram-me à presença de Marcello Caetano; mas para isso passei por uma antecâmara, onde se encontravam Moreira Baptista e Rui Patrício, chorando este como uma criança, olhando o infinito o primeiro.

 

Marcello estava pálido, barba por fazer, gravata desapertada, mas digno.

 

Fiz-lhe a continência da praxe e disse-lhe que queria a rendição formal e imediata. Declarou-me já se ter rendido ao Sr. General Spínola, pelo telefone, e só aguardava a chegada deste para lhe transferir o Poder, para que o mesmo não caísse na rua!

 

Estive para lhe dizer que estava lá fora o Poder no povo e que este estava na rua.

 

Declarou esperar que o tratassem com a dignidade com que sempre tinha vivido e perguntou o que ia ser feito dele. Declarei que certamente seria tratado com dignidade, mas não sabia para onde iria, pois isso não me competia a mim decidir. Perguntou a quem competia. Declarei que a "Óscar". Perguntou quem era "Óscar". Declarei ser a Comissão Coordenadora. Perguntou-me quem eram os chefes. Declarei serem vários oficiais, incluindo alguns generais, isto para que ele não ficasse mal impressionado por a Revolução ser feita essencialmente por capitães.

 

Perguntou-me ainda o que ia ser feito do ultramar. Declarei-lhe que a solução para a guerra seria obtida por conversações. Toda esta conversa, tida a sós, teve por fundo o barulho do povo a cantar o Hino Nacional e o Está na hora.

 

Entretanto, começou a caça aos pides e uma certa agitação nas massas, pelo que fui à janela tentar acalmar os ânimos. Nisso fui ajudado pelo antifascista Sousa Tavares.

 

O general Spínola chegou com Dias de Lima, não respondeu sequer ao meu cumprimento militar e assumiu o ar de quem tinha ali sido chamado para resolver uma situação crítica com a qual pouco tinha a ver. Perguntou-me como podia garantir a segurança de Marcello e dos ministros. Declarei que numa Chaimite. Respondeu que também iria na Chaimite.

 

Foi falar a sós com Marcello e veio de lá com ar de dono da Guerra!

 

Para garantir a segurança dos prisioneiros, mandei organizar a nossa coluna para seguir em direcção ao Terreiro do Paço, para tomarmos o caminho da Pontinha. Isto devido ao grande ajuntamento de povo na zona e para despistar possíveis seguidores.

 

Chegámos ao comando da Pontinha, onde o general Spínola me perguntou que forças eu comandava. E como lhe disse ser um grupo de dois esquadrões, portanto função de major, declarou que era necessário pôr um major a comandar as minhas forças, pois aquilo era de mais para um capitão. Assim, nomeou o major Monje, que teve o bom senso de não se armar em comandante, e deste modo o dia 25 terminou sem mais atritos, se bem que se começasse a ver as coisas a correrem mal.

 

É na sequência disto que não compareço na tomada de posse de Spínola no princípio de Maio; fui o único elemento da Coordenadora que lá não foi. Antes, tinha telefonado a convocar-me o capitão Vasco Lourenço, e eu declarei-lhe que não ia, pois só o faria com uma ordem expressa através de uma guia de marcha, para obrigar Spínola a oficializar o MFA, para não correr o risco de ele se tornar o dono da guerra, como tentou fazer a 25 de Abril.»

 

Fernando Salgueiro Maia, Capitão de Abril: Histórias da Guerra do Ultramar e do 25 de Abril, pp. 96-98; Editorial Notícias

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