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Zibaldone

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25
Abr17

O dia mais longo V

Francisco Freima

«Entretanto, esperava um oficial que ficou de se encontrar comigo às 5 horas, mas que só chegou depois das 10, com o major Jaime Neves e com a missão de levar os ministros. Pessoalmente, nunca tinha posto os pés num ministério, e os homens que estavam comigo encontravam-se na mesma situação. Mas, como me tinham dito que os corredores tinham várias portas blindadas, levei no meu jipe vários petardos de quilo de trotil para destruir as portas. Com o evoluir da situação, não foi necessário utilizá-los.

 

Pelas 7 horas, no Terreiro do Paço, surgem dois repórteres. Perguntam-me se podem tirar fotografias e conversar com as pessoas. Repondo-lhes: "À vontade, é também para garantir isso que nós aqui estamos." Olham-me com um certo ar de espanto e vão à vida.

 

Um furriel vem trazer-me uma senhora funcionária da limpeza dos CTT do Terreiro do Paço; diz que quer à viva força ir para o trabalho, e como tal atravessar o largo. Quando chega junto de mim, com ar de desânimo diz-me: "Tenho de ir trabalhar e o senhor tem de me deixar passar!" Replico-lhe: "Não se preocupe, porque hoje, e daqui para o futuro, o 25 de Abril vai ser feriado nacional." A mulher olha-me com ar de quem nada mais tem a fazer e volta para o lado da Estação Marítima do Sul e Sueste, dizendo talvez para ela que "aquele tipo é mesmo doido".

 

Cerca das 8 horas da manhã, um furriel vem ter comigo a correr. Diz-me que a Guarda Nacional Republicana (GNR) está a tomar posições pelo lado do Campo das Cebolas. Vou até lá ver o que se passava e verifico que, nas esquinas, há guardas republicanos armados de Mausers. Avanço para esclarecer a situação e, ao chegar junto deles, verifico que, na generalidade, são homens de 50 anos, com poucas condições para se armarem em heróis. O comandante deles é um tenente que já tinha sido meu subalterno na EPC. Dou-lhe um abraço e pergunto o que está ali a fazer. Ele responde que recebeu ordens para vir ocupar o Terreiro do Paço. Replico-lhe que, como amigo, lhe dou o conselho de voltar para a unidade, pois com Mausers nada pode fazer contra blindados. O tenente dá-me razão e volta para o quartel. Quando me dirigi aos GNR, um repórter fazia a cobertura do acontecimento; quando abraço o tenente, diz para o gravador: "Agora já não percebo nada; o capitão dos revoltosos abraça o GNR."

 

Vindos de Santa Apolónia, surgem dois batedores de mota da PSP, seguidos de uma camioneta azul de caixa aberta da mesma corporação, com a caixa cheia de polícias de Mauser na mão e com capacetes a brilhar ao sol. Seguiam todos em pé e ao monte. Junto às esquinas do Terreiro do Paço, viradas à Estação Marítima do Sul e Sueste, estão duas auto-metralhadoras ligeiras com as torres apontadas para o rio. Quando é assinalada a chegada da PSP, as torres são viradas nessa direcção e os dois batedores da PSP, vendo as armas apontadas para eles, levantam os braços em sinal de rendição, e claro, estatelam-se no chão. O condutor da camioneta com os polícias trava e estes vêm para a frente, impelidos pela travagem e, tal como num filme de Charlot, o carro sai de marcha atrás com os polícias todos baralhados na caixa de carga, atropelando-se uns aos outros, com os capacetes e as armas a caírem.

 

Logo que nasceu o dia, barcos da marinha de guerra, alguns estrangeiros, saem do Tejo. Mas uma fragata da nossa marinha começa a subir e a descer o rio. O desencontro decide-se quando, do posto de comando da Pontinha, informam a Marinha de que está a ser vigiada pela nossa artilharia, instalada na zona da ponte sobre o Tejo e do Cristo-Rei. A este navio deu o Governo ordem para arrasar o Terreiro do Paço. Mas mesmo Jesus Cristo, apesar de pressionado, não assentou praça na armada nem repetiu 1755.»

 

Fernando Salgueiro Maia, Capitão de Abril: Histórias da Guerra do Ultramar e do 25 de Abril, pp. 90-91; Editorial Notícias

Terreiro do Paço fragata.jpeg

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