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Zibaldone

Zibaldone

25
Abr17

O dia mais longo VI

Francisco Freima

«Logo que fechamos o cerco do Terreiro do Paço e arredores, surge-me o capitão M. S., comandante da PSP na zona, a dizer estar às minhas ordens, pelo que lhe ordenei que, com o seu pessoal, mantivesse uma contenção da população à frente das nossas posições, para não dificultar a manobra, e desviasse o trânsito do Rossio.

 

Algum tempo depois, surge-me um furriel num "creme nívea", que me diz ter apreendido o carro por ele, à viva força, querer entrar no Terreiro do Paço. O carro transportava um chefe da PSP e respectivo condutor. Chamo o chefe e pergunto-lhe qual o problema. Ele responde-me que recebeu ordens para ver o que se passava. Replico-lhe que tudo corre bem, e que deve informar o seu comandante para ter juízo e não se manifestar contra o MFA. O chefe faz-me continência e diz-me que vai prontamente informar o seu comandante. Este momento foi fotografado por um repórter do Diário de Notícias e surgiu no dia a seguir como documento no referido jornal.

Terreiro do Paço 25 de Abril PSP.jpgMas, enquanto duravam estes acontecimentos, e dentro das dúvidas sobre quem estava pelo Governo e contra ele, surge dos lados do Cais do Sodré um esquadrão de reconhecimento sob o comando de um tenente-coronel, em dispositivo de marcha, com a secção de exploração à frente, seguida do comando, com as auto-metralhadoras a seguir, etc. Saio do lado das minhas forças, sigo ao longo da coluna, paro junto ao jipe do comandante do esquadrão e apresento-me dizendo o meu nome e declarando pertencer ao MFA e ser o comandante das forças que cercam os ministérios. O meu interlocutor não tem galões, está armado de G3 e de um revólver num coldre de pele de gazela. Apresenta-se e diz estar à ordem do Governo. Nota-se que está nervoso.

 

Digo-lhe que o seu pessoal está debaixo da mira das minhas auto-metralhadoras e que é uma loucura resistir; por outro lado, não vale a pena estarmo-nos a matar depois das mortes que já tínhamos da guerra colonial. Ele hesita, não sabe o que fazer. Digo-lhe que toda a cavalaria está com os revoltosos e que vários camaradas meus que o conheciam me tinham dito ser ele uma pessoa sensata e honesta; como tal, teria de estar contra a hipótese de confronto.

 

Posto perante a hipótese de se render ou travar combate em inferioridade, o tenente-coronel rendeu-se, pelo que lhe disse para me acompanhar. Seguimos ao longo dos muros do Ministério da Marinha e, ao passar por baixo da janela virada à Trafaria, surgem alguns funcionários dos ministros e afins, de entre os quais um grita pelo nome do tenente-coronel e pede para os tirar dali. Nessa altura, peço ao tenente-coronel para me entregar as armas, o que ele fez, e, acto contínuo, virado para a janela, diz para o seu interlocutor: "Não posso, estou preso."

 

Até aqui, as forças fiéis ao Governo estavam em absoluta superioridade, não só em pessoal e material, mas também em viaturas e munições; depois do "reforço" das forças do RC 7 e do Regimento de Lanceiros 2, as coisas começaram a ficar mais equilibradas, em especial quando o esquadrão de reconhecimento do tenente-coronel passou a reforçar a nossa posição.

 

Depois, quando o brigadeiro J. fez avançar um pelotão de carros de combate M47, surge nova hipótese de tudo terminar mal.

 

Os carros de combate avançam sem disparar, o que me deu a garantia da pouca certeza dos seus tripulantes sobre o que tinham a fazer. Saí de trás dos nossos carros e, só, sigo a meio caminho, de braços levantados, para dialogar com o pessoal que seguia com os carros; a certa altura paro, ouço o brigadeiro aos berros dizendo para fazerem fogo. As tripulações não obedecem. O brigadeiro perde a cabeça e manda prender o alferes comandante do pelotão. Nesta altura, novamente a situação se decide a nosso favor: o inimigo tinha perdido um dos seus instrumentos mais poderosos, os carros de combate, pois, acto contínuo, as tripulações viram as peças para o lado e recusam-se a avançar. Em face da situação, vou dialogar com o pessoal que se passa para o nosso lado – passamos a ser a mais poderosa força terrestre, e como a aviação não "tinha tecto", também a maior força de manobra.»

 

Fernando Salgueiro Maia, Capitão de Abril: Histórias da Guerra do Ultramar e do 25 de Abril, pp. 90-93; Editorial Notícias

Terreiro do Paço 25 de Abril rendição de tropas

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