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Zibaldone

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25
Abr17

O dia mais longo VIII

Francisco Freima

25 de Abril Carmo.jpg«A marcha para o Carmo foi extraordinária pelo apoio popular que agregou, o que contribuiu bastante para que o Carmo perdesse a vontade de resistir. Nunca tinha visto o povo a manifestar-se assim. No Carmo, ao chegar, houve desde senhoras a abrir portas e janelas para colocar os homens nas posições dominantes sobre o Quartel, até ao simples espectador que enrouquecia a cantar o Hino Nacional. O ambiente que lá se viveu não tem descrição, pois foi de tal maneira belo que depois dele nada mais digno pode acontecer na vida de uma pessoa.

 

Foi o povo sem nome que iniciou e guiou a última companhia do Regimento de Infantaria 1 que estava com o brigadeiro a passar-se para o nosso lado, que me informou constantemente dos movimentos da Polícia de Choque, da PSP, da GNR, etc.

 

Entretanto, a preocupação principal era o facto de a Força Aérea e a Marinha não estarem do nosso lado. Não estavam contra, mas havia o facto de um heli estar a sobrevoar a zona, e poder ser um heli-canhão. A não reacção do Quartel definia a sua pouca vontade de defender o regime. Mas enquanto este não fosse derrubado formalmente, tudo podia acontecer.

 

Para os obrigar a render-se tínhamos doze granadas explosivas de auto-metralhadoras EBR, com um raio de cerca de 250 m, que rebentavam ao contacto inclusive dos vidros das janelas. Depois, o largo tem aí uns 70 m de largura e estava apinhado de gente. Surgia o problema: disparar para os obrigar a render, mas qualquer disparo faria umas centenas largas de mortos e feridos, o que seria um mau antecedente para a Revolução, que se queria limpa.

 

Mandei, pois, abrir fogo de armas automáticas para a frontaria, acima da janela mais alta, para que os próprios ricochetes não causassem baixas, mas permitissem compreender às cabeças reinantes que as coisas estavam quentes.

 

Depois dos disparos e de ter mandado uma EBR encostar a frente ao portão para o abrir, solicitei a presença de um mensageiro para dialogar. O mensageiro não sai, o tempo corre e a Revolução não avança. Informo um dos nossos oficiais que vou entrar para pressionar a rendição. Acrescento que, se não voltar dentro de quinze minutos, devem destruir o edifício, mesmo comigo lá dentro, pois, caso contrário, podemos estar todos arrumados.

 

Via rádio sou informado da chegada de um mensageiro; quase de imediato, surgem dois civis, acompanhados de um oficial das nossas forças que conhecia F., dizendo-me serem eles os mensageiros do general Spínola.

 

Deixo-os entrar no Quartel, mas depois começo a desconfiar dos mensageiros, pois deveria ser o general Costa Gomes a comparecer, visto ter sido para isso o mais votado pela Coordenadora. Quando vou interrogar o posto de comando sobre o facto, os civis saem do quartel, onde demoraram pouco mais de dez minutos, e pedem uma viatura para se deslocarem a casa do general Spínola; concedo-lhes uma viatura, mas faço-os acompanhar por um oficial.

 

Depois chega o mensageiro do qual já tinha sido avisado, pelo que verifiquei ter perdido uma boa oportunidade para averiguar tudo sobre os anteriores mensageiros. Até porque, no diálogo com Marcello Caetano, este não refere a conversa com os mensageiros, mas somente uma conversa com o general Spínola.»

 

Fernando Salgueiro Maia, Capitão de Abril: Histórias da Guerra do Ultramar e do 25 de Abril, pp. 94-96; Editorial Notícias

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