Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Zibaldone

Zibaldone

25
Abr17

O dia mais longo X

Francisco Freima

«A 26 segui para a Cova da Moura, onde se ia reunir a Junta de Salvação. Logo que lá cheguei, começaram a aparecer uns senhores que só queriam identificar-se ao comandante da força, desejavam cumprimentar, falar, etc., ao General Spínola, e todos vinham com ar muito importante, chegavam junto de mim e declaravam: inspector tal... E eu respondia: muito bem, faça favor de aguardar junto à casa da guarda. Antes tinha avisado a casa da guarda da importância das visitas.

 

Quando, pelas 20 horas, fui rendido por forças do RC 7, solicitei a Suas Excelências que entrassem nas Chaimites, pois o Sr. General não os podia atender na altura, mas que ia recebê-los depois. Segui para a António Maria Cardoso, e deu um gozo ver a cara deles, ao verificarem o que lhes estava a acontecer.

 

Os chefes da polícia política nunca pensaram, tão importantes que eram, virem alguma vez a ser presos. Bom, tinham razão para isso, pois ao entrarem no salão onde já se encontravam mais duas centenas de pides, a maioria levantou-se à chegada de Suas Excelências. Tal era o medo que eles transmitiam aos seus subordinados, que, mesmo presos, continuavam a venerá-los.

 

Na Cova da Moura, os habitantes de um prédio e as funcionárias da CUF, de outro prédio, tomaram a seu cargo a alimentação do pessoal: fizeram ovos mexidos, ofereceram tabaco, etc. Quando chegou um jipe com a refeição (almoço de dia 26), já ninguém queria comer, isto apesar de, desde o jantar de dia 24, não termos tido tempo para o fazer, depois de, no Carmo, os populares iniciarem o único saque da Revolução: partirem a montra de um supermercado para dar comida aos soldados, o que originou cenas caricatas, como um presunto a passar de mão em mão, em que cada um cortava um pedaço ou mordia, à falta de canivete. Para mim, isto foi a melhor lição de maturidade cívica, porque o povo na rua não roubou, não estragou, não insubordinou, colaborou e avançou na Revolução.»

 

Fernando Salgueiro Maia, Capitão de Abril: Histórias da Guerra do Ultramar e do 25 de Abril, pp. 98-99; Editorial Notícias

Antiguidades

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D

Bloguista

foto do autor