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Zibaldone

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22
Mai17

O som de Seattle

Francisco Freima

Soundgarden 1994.jpg

A imprensa evita falar na morte do Chris Cornell, supondo que na era das redes sociais impõe-se a ditadura da felicidade. Espero que continuem assim, porque normalmente tentam amesquinhar tudo o que de melhor existe na humanidade. Já agora, parem de dizer que «o Eddie Vedder é o único que resta do grunge», porque isso só revela ignorância, além de ser insultuoso para os outros: a nível dos vocalistas, ainda existem Mark Lanegan (Screaming Trees), Mark Arm (Mudhoney), Buzz Osborne (Melvins), John Bigley (U-Men), Tad Doyle (Tad)...

 

Uma geração inteira cresceu sob o signo da revolução iniciada em Seattle. Outra, a minha, cresceu a ouvir o eco desses tempos, fascinada com um movimento musical que esteve à beira de conquistar o mundo. Rotulado de «grunge», o som de Seattle foi o último grande manifesto, a derradeira vanguarda artística do século XX. A Sub Pop dinamizou o processo, mas o talento estava todo lá (excepto o Vedder, que teve de apanhar um avião para apanhar a onda). Muitas bandas incríveis apareceram, mas poucas ficaram na história. Eu devia ser a última pessoa a fazer um cânone, por gostar de todas, mas penso que é consensual referir os Nirvana, os Pearl Jam, os Alice In Chains e os Soundgarden como as maiores. Acrescentaria apenas os Screaming Trees, para mim a banda mais desvalorizada desse tempo. Existem também os precursores, como os Green River, percorridos pela tensão que se começava a criar entre o punk e o rock, tensão que colocaria nos antípodas as propostas musicais dos Mudhoney e dos Pearl Jam, as bandas geradas dessa cisão.

A síntese seria feita pelos Nirvana, o grupo icónico do movimento. Noutra categoria à parte apareceriam os Alice in Chains, com um som mais pesado, embora nos primeiros tempos tenham sido uma banda estranhamente próxima do glam metal. Penso aliás que este tronco genealógico está mais próximo daquilo que foram os Malfunkshun de Andrew Wood, que também fez uma evolução interessante do glam rock para o som de Seattle. Na onda metaleira que viria a ser adoptada pelos Alice In Chains, os Tad eram ao princípio reis e senhores. Outra banda dos primórdios foram os Melvins, fundamental para a formação musical do jovem Kurt Cobain. E ainda havia The Gits, liderados pela brilhante Mia Zapata, de longe a melhor artista daquela zona. Em termos de puro experimentalismo, ninguém bateu os U-Men de John Bigley. Nisto tudo, as bandas que animavam a cena de Seattle tinham uma qualidade muito acima da média, qualquer grupo medíocre daqueles tempos ombrearia com os melhores da actualidade.É fascinante ver como num curto espaço de tempo as bandas de transição geraram o movimento «grunge», noutras épocas a evolução teria demorado pelo menos uma geração.

Onde ficam os Soundgarden nesta história? Num papel muito especial, a de banda que conseguiu fundir as suas raízes metal com as suas raízes rock, criando um som único. Tinha também Chris Cornell, que em termos de voz só encontrava rival no Layne Staley. As duas bandas, Alice In Chains e Soundgarden, partilhavam ainda o facto de terem os melhores guitarristas de Seattle: Jerry Cantrell e Kim Thayil, respectivamente. Dos álbuns deles, os meus preferidos são o Badmotorfinger e o Superunknown, penso que é consensual essa escolha. A qualidade da composição nesses álbuns permite que músicas como «Somewhere», «Searching With My Good Eye Closed», «Let Me Drown» ou «Like Suicide» passem quase despercebidas – num grupo mediano seriam as melhores. Curioso é ver que muitas vezes apelidados de «Frown Garden», dada a aparente sisudez dos seus elementos, foram eles que criaram a ocasião para o começo auspicioso dos Pearl Jam, através da participação de alguns dos seus futuros membros nos Temple of the Dog, um grupo destinado a homenagear Andrew Wood – aqui novamente os Alice In Chains tocam a história dos Soundgarden, por também terem tido o seu vocalista implicado na criação dos Mad Season, o outro supergrupo de Seattle. E nunca é de mais lembrar que foram os Soundgarden a primeira banda «grunge» a assinar contrato com uma grande editora, a A&M Records. Eles abriram a caixa de Pandora para o que viria aí: um movimento intempestivo e incontrolável pronto a tomar de assalto o mainstream.

 

Os mal-entendidos seriam mais do que muitos, mas, olhando para trás, valeram bem a pena.

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