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Zibaldone

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15
Jun17

Percursos à portuguesa

Francisco Freima

Ontem vi o G., que me pôs a pensar na vida. O G. é mais ou menos da minha idade (dois anos mais velho) e a família dele viveu no meu prédio. Isto antes de se mudarem para um poiso melhor e deixarem a casa ao G., que se mudou recentemente com a namorada.

 

Quando éramos miúdos, o G. e eu éramos vistos de formas diferentes: o G., mau aluno, infantil e mimado era visto como um péssimo exemplo. Já eu, bom aluno, responsável e determinado era apontado como um modelo para os outros. Os anos foram passando e o percurso académico do G. foi perdendo gás. Basicamente, deu numa de bad boy e começou a passear os livros. Eu continuei a estudar olimpicamente, as boas notas que tirava sem esforço só me ajudavam a ter tempo para procurar outros conhecimentos, que a escola não me proporcionava. O G. não concluiu o 12º ano no ensino normal: quando foi para o centro de formação, estava eu a celebrar a minha entrada na universidade. Mas, de repente, eis que tudo muda... Enquanto andava distraído na faculdade a estudar e a compor poemas, o G. termina o 12º e tira um curso de informática no centro de formação! Ouvi distante essa notícia, havia quem dissesse que o rapaz talvez ganhasse agora algum juízo. 

 

Os anos voltaram a passar, fiz o mestrado, fiz voluntariado, tive trabalhos precários, desaguei neste blogue e no desemprego. Ontem, depois de visitar uma amiga, cheguei ao prédio montado na minha bicicleta. Lá estava o G. a sair do carro com a namorada. O G. agora é uma pessoa popular, o curso de informática que tirou no centro de formação deu-lhe a possibilidade de trabalhar na câmara aqui da zona. Tudo muito limpo, claro: ou talvez não... no meu concelho, a norma costuma ser os novos entrarem como homens do lixo, porque «o difícil é entrar, uma vez lá dentro estás garantido.» Acresce que o avô do G. foi figura destacada no município. E que colocou na função pública o seu filho J., eterno dirigente de uma sociedade recreativa. Este J. é o mesmo que, esquecendo-se o meu pai de pagar o ano de quotas da dita sociedade, riscou-o da lista. Estávamos na década de 90, numa altura em que as pessoas geralmente falhavam a visita do cobrador ao domicílio. Quando o meu pai notou isso (ele era sócio só por ser, não frequentava o clube), dirigiu-se à sociedade para pagar as quotas em atraso e as do ano seguinte. Que não, disse o J., que tinha sido riscado de sócio. O meu pai veio embora e achou aquilo um absurdo. Nesta época, como não podia deixar de ser, já a mulher do J. estava a trabalhar na câmara.

 

Voltando ao presente: hoje o G. é apontado como exemplo a seguir, um filho da maioria com um bom emprego na câmara. Eu sou o tipo que não vai a lado nenhum, que milita no BE e anda de bicicleta. Qualquer dia o G. irá juntar a tudo isto a felicidade de ser pai. Da forma como o país funciona, não me admiraria que esse rebento nasça, cresça e encontre um emprego estável mais depressa do que eu.

 

No entanto, como diria o César: não podemos impedir a progressão das pessoas destas famílias. Elas merecem ter as mesmas oportunidades dos outros cidadãos... e, claro, é tudo inveja.

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