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Zibaldone

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17
Jan17

Pier Paolo Pasolini

Francisco Freima

Poeta e realizador de cinema, Pier Paolo Pasolini foi um dos grandes artistas italianos do século XX. Hoje, inicio a análise a um dos meus poemas preferidos dele, Pedro II:

 

PEDRO II

Segunda-feira, 4 de Março de 1963

 

Tramontana. E frio sobre a Itália.

A Anac e a Anica, e o Sindicato de Jornalistas

(e depois, também o dos Escritores),

e eu, eu, à espera, gasto o domingo

no azul claro da tramontana – Tramontana

é também o nome de um dos Reis de Primavalle,

outro é Picchione, outro, Fiorino.

Cai a noite, os prédios de Primavalle

perdem a cor de estrume, e tingem-se

da cor dos milénios. Lá ao fundo, sob um montão

de viadutos e estaleiros, vê-se o marejar

pálido das luzes da Cidade

onde a História não tem vida.

Dói ser-se objecto desta negação.

Não, eu não me revolto

contra um Procurador de Cafarnaum,

devidamente formal, fatalmente

ignorante das delicadezas

da literatura... Ah Anac, ah Anica,

Ah sindicatos dos Jornalistas e dos Escritores!

 

Pier Paolo Pasolini, Poemas (trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo), p. 311; Assírio & Alvim

 

Sendo esta a primeira parte de Pedro II, importa contextualizar a inspiração do poeta: em 1963, Pasolini foi julgado por desrespeito à religião, devido a uma curta (La Ricotta) inserida no filme Ro.Go.Pa.G., que apresentava uma crítica simbolicamente dirigida à cúria romana. A Igreja Católica não gostou, e logo vieram a Anac (Associazione Nazionale Autoservizi in Concessione), a Anica (Associazone Nazionale Industrie Cinematografiche e Audiovisive) e os sindicatos dos jornalistas e dos escritores apoiarem o Vaticano. De resto, o tema religião, nomeadamente a diferença entre a teoria e a prática do clero, é um tema recorrente na poesia pasoliniana, basta lembrar A Um Papa (pp. 237-9 da mesma edição):

 

Milhares de homens sob o teu pontificado,

diante dos teus olhos, viveram em estábulos e pocilgas.

Tu sabias que pecar não é fazer o mal:

não fazer o bem, isso sim é que é pecar.

Quanto bem podias tu ter feito! E não fizeste:

não houve quem mais pecasse do que tu.

 

Voltando a Pedro II, o título do poema advém de certa escatologia, que aponta este como o nome do último papa a ocupar o trono de São Pedro. A tramontana é o frio do norte e o Primavalle é um bairro de Roma. Nesta primeira parte, o poeta relativiza o seu caso, colocado sob a perspectiva grandiosa de Roma, igualmente enquadrada e secundarizada pela passagem dos milénios. A ausência de revolta contra «um Procurador de Cafarnaum» resulta da compreensão desse devir onde, paradoxalmente, «a História não tem vida.» Quiçá compreendendo que a Cidade Eterna partilhará no futuro um destino semelhante ao de Cafarnaum, o poeta não assume uma atitude de confronto, antes prefere o plácido sarcasmo de quem está disposto a dar a outra face. Ressoa no exemplo pasoliniano a atitude de Cristo, ao pedir perdão a Deus pelas faltas dos Homens, já que eles não sabiam o que faziam. 

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