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Zibaldone

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24
Jan17

Pier Paolo Pasolini II

Francisco Freima

Aquiles e a morte de Heitor.jpgTerça-feira, 5 de Março (manhã)

 

Ainda há pouco, era o início do dia,

e havia uma luz velha, moribunda, mas depois

veio o azul de um golfo do Sul, no gelo da nortada.

Um dia que só era preciso descobrir pairava sobre nós.

Soberbamente longe de todas as nossas paixões.

Quem dentro em pouco se vai sentar no banco dos réus

olha para esse azul, e sente uma ânsia maravilhosa

de liberdade – como no tempo em que pensar num dia novo,

nascido sobre margens delicadas de rios nórdicos,

evocava um mundo extasiado com o ódio divino

de guerras antigas, e os mantos de flores campestres,

para lá dos becos da periferia das terras vénetas,

eram, no gelo do dia que amornava,

povos nus por baixo das lorigas, ao sol de Homero.

Quisestes ter um poeta neste banco

polido pelas calças de tantos pobres cristos?

Pois bem, aí o tendes. Nas greves da Poesia, a Justiça

passa a ser voz cega de andorinhas.

E não porque a Poesia tenha o direito

de delirar com um pouco de azul, um dia mísero

e sublime que nasce com a melancolia da morte.

Mas porque a Poesia é Justiça. Justiça que cresce

em liberdade, nas terras da alma, onde

em paz se cumprem os nascimentos dos dias, as origens

e os fins das religiões, e os actos de cultura

são também actos de barbárie,

e quem julga é sempre inocente.

 

Pier Paolo Pasolini, Poemas (trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo), p. 313; Assírio & Alvim

 

Na segunda parte de Pietro II, Pasolini volta a dar indicações acerca do ambiente. Contrapondo ao frio do Norte e à «luz velha, moribunda», aparece o azul vindo de um «golfo do Sul». Um dia belo está a nascer, mas, infelizmente, o mundo estimulado pelas paixões não consegue descortinar a etérea grandeza que se avizinha. A beleza de outra época da sua vida também está presente, quando o azul proporcionava almejos de liberdade, que levavam o poeta por sonhos heróicos, nos quais as próprias guerras tinham o seu quê de grandioso, ou não houvesse, por baixo das cotas de malha, esses «povos nus», cantados pelo apolíneo Homero.

 

Assim, ficamos apenas com um poeta sentado no banco dos réus «polido pelas calças de tantos pobres cristos.» Um julgamento proporcionado pela Poesia em greve, facto que os homens aproveitam para transformar a Justiça em «voz cega de andorinhas.» O autor reflecte depois sobre o papel da Poesia, que não é tanto o de sonhar «com um pouco de azul», nascido da tal luz moribunda (que não é mais do que «a melancolia da morte»), mas sim o de promover uma «Justiça que cresce em liberdade.» A partir daí, Pasolini inicia uma apologia da arte pela arte, concluindo que «os actos de cultura são também actos de barbárie, e quem julga é sempre inocente.» Contrariamente à Justiça tomada pela «voz cega das andorinhas», aquela dada pela Poesia consegue sublimar a barbárie em arte (basta lembrar a Ilíada e o tratamento dado por Aquiles a Heitor logo após a sua morte). A inocência de quem julga não é mais do que essa capacidade de compreender a raiz do mal (na mesma Ilíada, o comportamento de Aquiles é justificado pela morte de Pátroclo às mãos de Heitor, num trágico equívoco).

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