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Zibaldone

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14
Mar17

Pier Paolo Pasolini IX

Francisco Freima

Pier Paolo Pasolini.jpgQuinta-feira, 7 de Março (manhã)

 

Pois é, fui condenado.

Episódio pessoal, cicuta que terei de beber sozinho.

Como o herói de uma opereta de dor, de coturnos

entre o baixo coro, desço numa noite – morna –

a horrenda escadaria. Os amigos vão jantar.

Sozinho. Com três gatos de fotógrafos, e a pequena

multidão que não olho, herói encolhido na sua dor.

São as ruas que percorro todas as noites

e que agora revelam a sua verdadeira realidade:

não são o meu domínio, a minha paisagem,

a minha intimidade, pertencem a outros,

e o seu valor parece-me agora extremamente estranho.

A tepidez monstruosa de uma Primavera que não há,

a infinita confidência das coisas conhecidas e reencontradas,

as solidões urbanas no ar terno do crepúsculo

imediato, ainda invernal... Esperanças ingénuas,

mitos poéticos de uma alma que é, na realidade,

a hóspede, a visita pobre que ninguém conhece,

e a quem ninguém dá o direito de estar aqui.

Uma insolente certeza revelam, porém, os que agora se dizem

donos desta cidade despojada de poesia:

campeões não de uma ideia política, mas de uma classe,

com as suas casas, as suas famílias, as suas amizades,

que aqui têm raízes profundas, com iníquo gosto

e iníqua consciência: mas com pleno direito.

Vi bem de frente essa «classe», durante um dia inteiro,

e senti o terror que os antigos sentiram pelos monstros.

A descoloração histérica da pele (omissis,

omissis, omissis), os olhos miúdos

embainhados em duas pálpebras uterinas,

a boca mole do napolitano amante

de comida fétida (omissis, omissis,

omissis), em cujo sangue quente

ressuma sangue de vendedores ambulantes.

E esta efígie, que foi nobre, agora,

nesta mudança desproporcional dos valores da história,

é a de um (omissis) homem do Estado:

do Estado pequeno burguês e paterno.

É ele o possuidor desta minha realidade,

e, ao saber isso, a realidade despoja-se,

passa a ser coisa repugnante, nua, como nos sonhos.

Sozinho: eu, e a Baba que o monstro deixa ao passar pelo mundo.

 

Pier Paolo Pasolini, Poemas (trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo), pp. 329-31; Assírio & Alvim

 

Conhecida a sentença, Pasolini abandona cabisbaixo o tribunal. A cicuta que terá de beber sozinho faz dele um Sócrates sem discípulos. Andando pela rua, apercebe-se afinal de que Roma não é a sua cidade, que apenas o tolera enquanto a sua intimidade pertence a outros. Podia ser o caso de mais um poeta expulso da polis platónica, não fosse o facto de a elite representar tudo menos uma sofiocracia. Pelo contrário, a descrição remete para seres grotescos, incarnações do «Estado pequeno burguês e paterno». Essa casta, completamente corrompida, mostra a verdadeira face da realidade: um basilisco de Baba que arroja pelo mundo os seus vícios, apodrecendo tudo à sua passagem. 

 

Sendo esta a última parte de Pedro II, convém referir que Pasolini, acusado de desrespeito à religião do Estado, foi efectivamente condenado pelo tribunal a quatro meses de prisão. No entanto, esta decisão seria anulada em segunda instância. Todo o processo que levou à condenação do poeta foi um ajuste de contas por parte da tal classe que dominava a Itália. No filme La Ricotta, Orson Welles, que interpretava o papel de um realizador a rodar um filme sobre Jesus Cristo, afirmava: «A Itália tem as massas mais iletradas e a burguesia mais ignorante da Europa... O cidadão comum é um criminoso, um monstro. É um racista, um colonialista, um defensor da escravatura, uma nulidade.» A provocação pasoliniana teve o efeito de colocar o país inteiro contra ele. Por mais injusta que fosse essa caracterização, a verdade é que estava no domínio da arte. Os compatriotas não o entenderam, mas ele foi uma daquelas pessoas verdadeiramente livres, um espírito irreverente. Só assim se explica que nos anos 70, em plena crise académica, apoiasse a polícia em vez dos estudantes. Sendo ele de esquerda, a atitude deu brado: seria um traidor? Não: lúcido como era, Pasolini sabia que o mundo não podia ser visto a preto e branco. A polícia, atacada violentamente, era composta por agentes recrutados nos bairros mais pobres de Itália; os estudantes arruaceiros pertenciam, na sua esmagadora maioria, à burguesia endinheirada. Com os anos a passarem, vemos um pouco por todo o lado (até em Portugal... não é, Durão Barroso?) onde andam esses «revolucionários». Nada como o tempo para separar o trigo do joio.

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