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Zibaldone

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14
Fev17

Pier Paolo Pasolini V

Francisco Freima

Quarta-feira, 6 de Março

 

Os Santos? Não, os Santos não são estes!

Não vedes? Um vem do Trullo, e, altaneiro,

queixa-se aos homens do bairro dos incómodos

de ser um estranho; outro vem

de um apartamento de rufias em Borgo,

casado com uma mãe que é só barriga,

marido leviano e depravado, o mais velho

dos seus filhos com caras de cão,

e o sonho, coitado, da grandeza burguesa!

Outro ainda vem de trinta anos de serviço

em Paris, como criado de mesa, bicha desesperada,

que ri, ri, porque rindo exorciza a troça.

O último vem não sei de onde, de Prati ou de Appio,

actor secundário de profissão. São estes os Santos?

Estes com ganchos nos cabelos, redes

nas perucas, «realizados» só porque protegidos

com fervor mais estético do que o que Donati

usa nos penteados? Raça de víboras!

«Alegando que estava a representar a cena de

um filme»... Ah, com a «Santa Maria»

quero gritar-vos com a serenidade ofendida

de quem não é vítima feroz da forma:

Santo é o Stracci. Rosto do antepassado de nariz achatado

que Giotto viu contra tufos e ruínas castrenses,

ancas redondas que Masaccio pintou em claro-escuro,

como um padeiro faz um pão sagrado...

Se não vedes a bondade com que afasta

o cesto e o dá à família para que mastigue o pão

ao sol do Dies Irae; se não vedes a ingenuidade

com que chora o naco roubado pelo cão;

se não vedes a ternura com que depois acaricia

o animal culpado; se não vedes a coragem humilde

com que responde a quem o ofende cantando uma canção

dos avós da Ciociaria; se não vedes a bravura

com que enfrenta o seu destino de inferior,

cantando-lhe a filosofia na gíria dos ladrões que lhe é tão cara;

se não vedes a ânsia com que faz o sinal da cruz

diante de um dos vossos tabernáculos para pobres,

antes de se atirar à comida; se não vedes a gratidão

com que, depois de um ridículo baile de alegria, à Charlot,

volta a fazer o sinal da cruz diante do mesmo tabernáculo

onde vós consagrais a sua inferioridade;

se não vedes a simplicidade com que morre...

 

 Pier Paolo Pasolini, Poemas (trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo), pp. 317-19; Assírio & Alvim

 

Raptada pela estética de La Ricotta, nesta parte Pasolini estreita as fronteiras entre o cinema e a poesia, ao trazer Giovanni Stracci para a cena. O começo, tomado de uma frase solta que gosto de imaginar como o arroto dos alarves (um advogado a descrever aquela trupe de marginais como santos no tribunal), propicia ao poeta uma incursão pelas suas recordações do bas-fond romano. Não, efectivamente aquele cortejo de cretinos não são, não podem ser santos. Santo é o Stracci, um Cristo moderno, que bem poderia ter sido descendente desse homem visto por Giotto e pintado por Masaccio, artistas numa era em que as técnicas da pintura adequavam-se perfeitamente ao tema (des)proporcionado pelo tal nariz achatado.

 

E quantos Stracci não conhecemos nós? A história dele podia ser a de um alentejano emigrado em Lisboa, que defronte de uma qualquer taberna da Amadora ou da Amora entrega-se à momice dos simples. Um castiço de bem com a vida, um «inferior» fabricado pelo capitalismo, do qual recebe a injustiça com um generoso sorriso na cara. Alguém que vai vendendo o suor em troco de uma bagatela, que a sociedade programou para ser um lumpen, não contando porém que nele habitasse a grandeza dos deserdados. Mas mesmo assim a sociedade não quer saber: Stracci foi feito para trabalhar, para lutar pelo seu naco. Se acaricia o cão que o roubou, é porque o sistema ainda não pode controlar todos os aspectos da inferioridade a que o relega. 

 

Stracci é grande, tal como Pasolini: numa sala de tribunal, rodeado de burgueses, o poeta lembra o Cristo que não responde às acusações do Sinédrio. A arte, seja dos profetas ou dos poetas, presta-se a estes equívocos. 

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