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Zibaldone

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21
Fev17

Pier Paolo Pasolini VI

Francisco Freima

Quarta-feira, 6 de Março (fim do dia)

 

O sol, o sol. Como já em fins de Março,

nos meandros de Abril. Vai, meu automóvel azul,

vai onde queres, pelas estradas marcadas por outro sol,

pelo Monteverde dos pobres, cenários repletos

de casas empoleiradas, queimadas – um navio sobre o asfalto –

filas de bares e talhos com a luz como única cliente – 

e o outro lado do bairro, com a luz de raspão –

uma rua a subir – o Sanatório, com os jardins negros –

a Portuense...

No Trullo ao sol, como há dez anos.

«–Pára, Pa', vem dar dois pontapés connosco!»

O Giorgio, o Gianneto, o Carlo, o Mouro,

e os outros, calmeirões de vinte e cinco anos,

um tanto calvos nas fontes, com anos de cadeia;

os irmãos mais novos ainda muito novos,

palhaços alegres enfiados nas roupas dos pais,

ou elegantes na sua miséria, olhos miúdos

como duas folhinhas húmidas feridas pelo sol.

O jogo, no coração do bairro,

no meio dos prédios que, para além do sol e de alguma figura

de irmã, ou de mãe, com as batas dos dias de trabalho,

nada têm para oferecer à nova Primavera...

Ao correr, o Giorgio parece o Carlo Levi,

divindade propícia, ao dar um pontapé de bicicleta,

o Giannetto tem a hilaridade do Moravia, e o Mouro,

devolvendo a bola, é o Vigorelli, quando se enfurece ou abraça,

e o Coen, o Alicata, a Elsa Morante, os redactores

do Paese Sera ou do Avanti, o Libero Bigiaretti,

jogam comigo, no meio dos mastaréus do Trullo,

uns à defesa, outros ao ataque. Outros ainda,

como o Pedalino de camisola laranja

ou o Ugo de blue-jeans do ano passado puídos no sexo,

estão encostados ao muro cor de mel da prisão

de suas casas, são o Benedetti, o Debenedetti, o Nenni,

o Bertolucci de rosto um tanto descorado pelo sol,

sob a aba mole do chapéu, e o trejeito terno

da certeza sagrada dos incertos.

E ao lado de um monturo dourado está o Ungaretti, rindo,

E os jovens, irmãos dos jovens do Trullo,

são o Siciliano, a Dacia, o Garboli, o Bertolucci filho; e, como o Sordello,

desaprovador e apaixonado, o Citati. E quem é que está ali,

sobre aquele chão com uma lata cor-de-rosa e um caroço de fruta amarelo?

O Baldini e a Natalia. E dentro de um pátio cortado

pela luz como num caravaggesco sem negros, estão o Longhi,

a Banti, o Gadda e o Bassani. O Roversi, o Leonetti

e o Fortini descem na paragem do autocarro,

saudados pelo Contini e por um sociólogo alemão,

e, com eles, a Bachmann, o Uwe Johnson, o Enzensberger...

e um bando de anjos londrinos e fotógrafos americanos 

de olhos vermelhos neuróticos, e, vindo da Rússia,

como se viesse para as cruzadas, o Chukrai, e, o Sartre

que, como um surdo, pede que traduzam, ele que tudo percebeu...

Quem disse que o Trullo é um bairro abandonado?

Os gritos do pacato jogo de futebol, a muda Primavera,

não será esta a verdadeira Itália, fora das trevas?

 

Pier Paolo Pasolini, Poemas (trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo), pp. 319-23; Assírio & Alvim 

 

Depois de se debruçar sobre quem seriam os santos, Pasolini sai do tribunal, entra no seu automóvel azul e navega até ao Trullo. Regressado à periferia de Roma, os amigos desafiam-no a jogar à bola com eles. À distância da lenda que se tornou, podem parecer estranhas estas relações de cumplicidade com os mais pobres, mas Pasolini transpôs para a vida o grande poeta que foi. O jogo de futebol, disputado numa tarde primaveril, contrasta com o ambiente pesado do tribunal, feito de hierarquias e formalismos. Logo começa a subversão da realidade, quando os Giorgios e os Gianettos vão adquirindo as feições dos seus outros amigos, aqueles que mais condizem com a ideia que fazemos de um artista famoso. Surgem os poetas, os jornalistas, os políticos, os cineastas, mas na pele de homens simples que jogam à bola. A beleza desta parte está aí: Pasolini parece ele mesmo deslumbrado com a sua descoberta, vai desfiando os nomes dos amigos que correspondem aos outros, numa tessitura tanto mais bela quando a sabemos banhada por um sol de tréguas, a retardar uma sentença estúpida ditada por homens mesquinhos. 

 

Nesta festa pasoliniana, «fora das trevas», há um certo espectáculo próprio de Fellini. A passagem dos «anjos londrinos e fotógrafos americanos» lembra-me sempre a recepção frenética a Sylvia (Anita Ekberg), a estrela sueca que os jornalistas aguardam impacientemente no aeroporto, em La Dolce Vita. Aqui, temos outras estrelas internacionais, intelectuais como a poeta austríaca Ingebor Bachmann, o realizador soviético Grigory Chukrai ou o filósofo francês Jean-Paul Sartre. Curiosamente, sobre este último Pasolini já faz o retrato do compagnon de route que daí a alguns anos ilustrará na perfeição a visita de Sartre a Andreas Baader na prisão de Stammheim. O equívoco é total, e embora Baader se sinta incompreendido pelo filósofo, a verdade é que este percebera tudo.

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