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Zibaldone

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07
Mar17

Pier Paolo Pasolini VIII

Francisco Freima

Quarta-feira, 6 de Março (fim do dia)

 

Apostadores, apostai na condenação.

Olhai para esta bela Trindade, o Supremo,

o Pássaro, com olhos de ave de rapina de faiança,

a muda Rola coberta de púrpura negra,

e os dois Tordos, Harold Lloyd com meio metro

de perna a menos e nariz esticado sobre a Bancada.

Não olham para mim. É estranho. Sagrados, nem

por um instante cravam os olhos sagrados nos meus.

Nataniel! Os sonhos obscenos da imprensa burguesa

têm este poder: reduziram-me a Demónio.

Um Demónio que é só ossos e gera o terror com o seu terror.

Tudo foi feito no êxtase quotidiano

das belas leituras da crueldade neo-liberty:

apostadores, apostai na condenação!

Olhai para o verdadeiro omissis que escondeu as asas de rato

no omissis que o Estado lhe concede como um trono,

um omissis que cala, por um qualquer ostracismo

perpetrado contra ele pela cultura

e que depois medita omissis, com as pálpebras

desenhadas por um ourives omissis sobre o omissis dos olhos.

E quando chega a sua vez... Nessa altura, antes do mais

vede omissis omissis omissis

omissis ofende a Cultura que assiste à sua exibição:

nenhum pudor – nem sequer em nome do Omissis –

nas suas palmadas sobre a Omissis, nas suas fúrias

omissis (eu, sim, saberei o que é um actor, minha louca

Anna, meu Orson, urso gentil como o ronco de um trovão)

as suas pausas despudoradamente exibidas

a sopesar suspenses de omissis de Gennura,

os tons altissonantes por omissis que revela desespero

por causa de um «cornudos» que, para mim, di Collegno, é flatus vocis.

Estais a ver, apostadores? Não tem qualquer pudor

em reiterar as normas de um ofício diante de quem

tem do ofício uma ideia tão sumamente pudica.

E de tantas realidades e irrealidades cristãs

que rasto ficou sobre os seus traumas?

O sangue de Cristo passou a ser lacre,

o lacre foi pó, o pó foi omissis.

Nem uma palavra, um acento, um olhar,

ah, um olhar, que sejam cristãos, para quem

tem o hábito, pouco civilizado, é certo, e um tanto angustioso,

de os pedir a alguém que fala, a alguém que olha.

Ah, doce religião, aliás tantas vezes traída,

no homem em quem petrificaste nasce a loucura.

Os seus olhos não se atrevem a olhar, há neles

o avesso da luz. O rosto empalidece

e enche-se de manchas vermelhas, perverso. O eu sofre

uma inestética erecção: tem por si um amor infeliz,

como diz um verso oral de Elsa Morante.

E então, diante dessas almas, o Mal

é a única realidade. Entra numa loja,

de luvas e chapéu negros, carrega uma pistola

com balas de ouro. Depois, institui

um novo Culto, com ritos suburbanos,

e propaga-o clandestinamente, representando

ejaculações que ninguém vê. Onde o Cristianismo

não renasce, murcha. E, contradição

mil vezes, mil vezes aludida

pelo meu Cristo irredutível,

acaba defendido por algum Herodiano tresloucado

macabramente desprovido do sentido do ridículo.

 

 Pier Paolo Pasolini, Poemas (trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo), pp. 325-29; Assírio & Alvim

 

Na véspera de conhecer a sua sentença, Pasolini pinta um fresco daquilo que tem sido o seu processo. Malquisto pelo tribunal e pela imprensa, bastiões de um puritanismo hipócrita, o poeta vira-se para a figura de Jesus, o seu «Cristo irredutível», cuja palidez certamente iguala a figura do próprio Pasolini, «Demónio que é só ossos e gera o terror com o seu terror». Daí que seja normal a presença do tema do renascimento, sem o qual o Cristianismo está condenado a desaparecer. Iconoclasta e irreverente, chega a traçar uma religião que perante a hipocrisia prefere a autenticidade do Mal. Um Cristo, «de luvas e chapéu negros,  carrega uma pistola com balas de ouro», iniciando um culto que se propaga através de «ejaculações que ninguém vê». Este é assim um regresso às origens do Cristianismo, em que os crentes na clandestinidade desenhavam a forma de um peixe para assinalarem a sua religião. A história não passará então de um ciclo lançado pelo infinito, o eterno retorno nietzschiano ou o corsi e ricorsi de Vico adaptado aos novos tempos.

 

Quase nem surpreende ver um «Herodiano tresloucado» nos sítios onde o Cristianismo murchou. A pétrea figura de um Cristo sem pingo de humanidade só poderia dar azo à defesa daqueles que não actuam de acordo com os preceitos da sua religião. São esses que beneficiam de um mundo sem espaço para fúrias cristãs capazes de pôr em debandada os vendilhões do Templo.

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