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Zibaldone

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19
Jan17

Programas culturais

Francisco Freima

RTP 3.jpg

As sucessivas vagas de programas culturais na TV não têm feito grande coisa pela divulgação das artes em Portugal. Mais do que nos conteúdos, o principal problema está no tempo dispensado a estes projectos. Raramente vemos um programa sobre Cultura a superar os trinta minutos de emissão. Parece que a nossa imprensa ficou presa à ideia de que este tipo de programas são chatos, daí que opte sempre pela abordagem «toca-e-foge». De quando em quando, uma apresentadora recita um poema na RTP3 ou um jornalista apresenta um cartaz das artes, basicamente uma agenda de espectáculos sem grande substância. Seguida, claro, pela entrevista da praxe.

 

O 5 para a Meia-Noite, que podia ser importante para a divulgação de novos artistas junto do público jovem, não passa afinal de uma cópia requentada dos late-night shows norte-americanos. Deprimente à sua escala, nem conseguiu convencer Cobie Smulders a aparecer por lá. Os convidados lembram aquela anedota dos tempos da URSS, sobre os tanques e soldados que davam umas dez vezes a volta à praça do Kremlin para parecerem muitos. O 5 é igual: a cada um/dois anos esgotam o rodízio dos famosos, recomeçando-o outra vez. Com uma ou outra novidade, geralmente alguém no gozo dos seus 15 segundos de fama, são sempre os mesmos. Mas a pior parte deste programa é fazer da política um freak show protagonizado por Joana Amaral Dias e Rodrigo Moita de Deus. Não admira, portanto, que depois a juventude olhe para a política como um vale tudo onde existem derrotados e vencedores declarados pelo Twitter. 

 

Como não gosto de criticar sem apresentar soluções, lanço o desafio às televisões: porque não disponibilizarem duas horas para um programa cultural, dedicado apenas a uma arte? Aposto que a experiência iria correr bem, se se livrasse dos formatos clássicos. Na poesia, por exemplo, ao invés das estafadas entrevistas, podiam convidar o autor a recitar uns poemas, dirigindo-se ele depois ao público para debater com eles o significado do que escrevera. E quando digo público, é mesmo público, não são convidados escolhidos a dedo ou figurantes contratados. Depois de discutida a poesia, poderia seguir a amena cavaqueira por outros temas. Para a pintura, poderia ser uma exposição de quadros, durante a qual o artista explicasse o seu trabalho, podendo depois improvisar o formato do programa à sua maneira. Nada disto custa mais do que muitos programas pagos a peso de ouro, embora tudo isto seja mais radical do que um reality show. Parece que não, mas aí tudo tem filtros, mais não seja pelo perfil dos concorrentes, gente que não pensa nem tem nada para dizer. Mais subversivo seria darem duas horas diárias de emissão a pessoas com ideias, mas isso os directores não querem, pois têm medo de tudo o que escapa ao seu controlo. É que um artista à solta pode desorganizar uma estação, enquanto um tipo qualquer da Casa dos Segredos só serve para alinhá-la.

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