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Zibaldone

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06
Dez16

Que País É Este (1978/1987)

Francisco Freima

O sucesso de Dois tornou a Legião Urbana na maior banda de sempre do rock lusófono. Tentando aproveitar a onda, a EMI envia o quarteto novamente para estúdio. Como a experiência não estivesse a resultar, Renato Russo decide ir ao baú dos seus tempos de «Trovador Solitário», retirando de lá a maioria das pérolas do disco Que País É Este (1978/1987). O próprio Renato explicou o processo de composição do álbum, numa entrevista de 1988:

 

Na verdade, estávamos gravando outro disco, que seria o terceiro, mas resolvemos parar porque, intuitivamente, sentimos que aquele disco não era para o momento. Eu também não estava muito a fim de escrever letras. Então, como já estávamos no estúdio, com tudo ligado e produtor em cima, pintou a ideia de gravar as músicas antigas, pegando mais duas novas composições para que o trabalho viesse até 1987. Ficou legal.

 

Mais fixado nas raízes punk da banda, Que País É Este abre com a música quase homónima. Escrita nos seus tempos de Aborto Eléctrico, Renato faz uma crítica virulenta da sociedade brasileira em Que País É Esse?. O som mais pesado não retira senso melódico ao grupo: enquanto Russo grita a mensagem («Terceiro Mundo se for!/Piada no exterior!/Mas o Brasil vai ficar rico/Vamos facturar um milhão/Quando vendermos todas as almas/Dos nossos índios num leilão!»), a secção rítmica fica por conta do grande Renato Rocha. A segunda música, Conexão Amazónica, mantém a toada da anterior, com mais bateria à mistura. Não sendo das melhores da Legião, esta canção fica na memória pelos seguintes versos:

 

E você quer ficar maluco, sem dinheiro e acha que está tudo bem,
Mas alimento pra cabeça nunca vai matar a fome de ninguém,
Uma peregrinação involuntária talvez fosse a solução,
Auto-exílio nada mais é do que ter seu coração... na solidão!

 

A seguir temos as «gémeas» Tédio (Com um T bem grande pra você) e Química. Músicas tipicamente punk, a primeira aborda o tédio da juventude em Brasília, a capital onde «todos vão fingindo viver decentemente». Em Química, a crítica dirige-se ao sistema de ensino e àquilo que espera os estudantes depois da vida escolar. O refrão ainda é bastante convincente nos dias de hoje:

 

Não saco nada de Física,

Literatura ou Gramática,

Só gosto de Educação Sexual

E eu odeio Química!

 

Pelo meio, fica Depois do Começo, considerada «pretensiosa e babaca« por Renato Russo. Confesso que também não é das minhas preferidas, pelo que passo à frente.

 

A partir de Eu Sei, o álbum amaina um pouco, tornando-se mais suave. Esta canção, como praticamente todas da Legião, vive exclusivamente das letras inspiradas:

 

Sexo verbal não faz meu estilo,
Palavras são erros, e os erros são seus,
Não quero lembrar que eu erro também.
Um dia pretendo tentar descobrir
Porque é mais forte quem sabe mentir,
Não quero lembrar que eu minto também.

 

Novamente, a banda opta por não emparelhar músicas gémeas, já que entre Eu Sei e Angra dos Reis se interpõe Faroeste Caboclo, que narra a epopeia de João de Santo Cristo, desde os anos de estudante travesso até à sua morte num duelo com Jeremias, rival no tráfico de droga e na disputa pelo coração de Maria Lúcia. Além disso, costuma distinguir os verdadeiros legionários dos ouvintes ocasionais: se não acreditam, tentem aprender a letra toda... 

 

Depois, chega Angra dos Reis. Alguns críticos musicais, à falta de melhor, atacaram esta música, sobretudo a performance de Renato enquanto vocalista. Numa letra que ouso chamar de meta-metafórica, o sujeito lírico critica a central nuclear de Angra dos Reis, cujas operações iniciaram em 1985 (em 2000, outra central nuclear entraria em funcionamento no mesmo local). Para mim, uma das melhores da banda. A finalizar, temos Mais do Mesmo, que resgata o punk inicial do álbum e retrata o vazio existencial da juventude brasileira. Nas palavras de Russo:

 

A ideia que a gente queria colocar, nesse disco, era Mais do mesmo. Porque, de repente, o que está rolando por aí é mais do mesmo. A situação não mudou nada, não acontece nada e, então, esta música é um fecho para Que País é Este.

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