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Zibaldone

Zibaldone

06
Jan17

Ruy Belo II

Francisco Freima

Como prometido, fica o prefácio da 2ª edição de Homem de Palavra(s). As introduções de Ruy Belo aos seus livros costumam ser muito boas, tendo ainda o condão de secarem completamente a crítica:

 

DE COMO UM POETA ACHA NÃO SE HAVER

DESENCONTRADO COM A PUBLICAÇÃO DESTE LIVRO

explicação preliminar à sua segunda edição

 

No balanço que, em finais de 1969, publicou sobre livros de poesia que nesse ano apareceram, um crítico literário que aliás muito prezo disse que, com este Homem de Palavra(s) eu, como poeta, me havia desencontrado. Ora eu creio que isso não aconteceu, embora só agora o diga. O que aconteceu foi que mais uma vez a crítica – quando a havia, porque agora resta o primeiro de todos, João Gaspar Simões, a lutar ingloriamente contra moinhos de vento, lido talvez às escondidas pelos piedosos leitores da página literária do Diário de Notícias das quintas-feiras – se ficou num livro passado de um autor para o voltar contra os seus livros futuros, como se seus não fossem igualmente. Ora pode muito bem acontecer que os meus críticos tenham ficado pela Boca Bilingue e parece que nunca mais tenham lido os livros que posteriormente publiquei ou tenham esquecido os dois que publiquei antes desse.

 

Eu sei que Homem de Palavra(s) talvez não atinja a exigência de Boca Bilingue, mas mesmo este livro, na realidade, creio que está longe de ser o mais equilibrado dos meus nove, não contando, portanto, com essa plaquette, «Homenagem talvez talvez Viagem», editada por Papeles de son armadans, a conhecida revista dirigida em Palma de Mallorca por Camilo José Cela e essa crítica furibunda à política oficial do tempo, quando o Papa teve a rara coragem de receber os chefes nacionalistas africanos das antigas colónias portuguesas. Este poema permanecerá inédito, porque não tive a valentia de o dar então à estampa com medo não tanto da censura como dos mecanismos da repressão e hoje seria fácil demais dá-lo a conhecer, além de quer uma quer o outro poderem não ter esse tal equilíbrio que sempre exijo dos meus livros. O que procuro evitar a todo o custo é repetir um livro, se possível um simples poema ou processos por mim já levados até à exaustão. Cada livro meu, quer-me a mim parecer, é um livro diferente do anterior. Em Homem de Palavra(s), parece-me ter escrito poemas, introduzido processos, buscado formas que nunca escrevera, introduzira ou buscara até então. A exemplo, «Algumas proposições com crianças» ou «Algumas proposições com pássaros e árvores que o poeta remata com uma referência ao coração» são poemas que ninguém, segundo julgo, nem eu próprio escrevera antes. Isto para dar apenas um exemplo.

 

Também eu já tive a minha hora de vão catolicismo, poderia dizer eu, a propósito de Homem de Palavra(s), parafraseando Antero. As epígrafes, pedidas a dois apóstolos, não permitem classificar este livro como cristão. Já para a Boca Bilingue eu dispunha de um versículo do livro da Sabedoria que diz: «A sabedoria detesta a boca bilingue». Não o introduzi por eventualmente conferir um sentido unívoco a um segmento de linguagem que eu queria plurivalente e evasivo, configurando o verdadeiro sentido da palavra poética. Se as epígrafes pedidas à Bíblia conferissem o cariz cristão a quem delas se socorre muitos autores teriam de ser considerados cristãos, quando tal ideia nunca lhes teria passado pela cabeça nem pelo coração. Para evitar equívocos, eliminei o verso final de «Corpo de Deus», além de poder afirmar que «O maná do deserto», «Lot fala com o anjo», «Senhor da palavra», «Palavras de Jacob depois do sonho» e evidentemente o soneto «Eu vinha para a vida e dão-me dias» não têm conteúdo cristão. O clima do livro já não é o da fé, aliás perdida, que percorria de lés a lés as páginas de Aquele Grande Rio Eufrates; constituem o resultado de leituras profissionais e obrigatórias de livros sagrados tomados, no entanto, como livros profanos. É o ambiente dos gregos. Eu próprio viria a escrever em «Do sono da desperta Grécia», poema incluído no livro Transporte no Tempo: «Pela primeira vez o homem se interroga/sem livro algum sagrado sob a sua inteligência». «O maná do deserto» não fala aliás fundamentalmente da Bíblia. Se as «codornizes» são as de uma passagem da Bíblia, os «pássaros» são do filme homónimo de Alfred Hitchcock e a referência ao aviário do Freixial é a do aviário dessa povoação, que conheci um dia que ao Freixial me desloquei, para lá almoçar a convite do Alexandre O'Neill, que lá se isolava quando queria escrever, como aliás o fazia, sei-o hoje, Alves Redol, que lá escreveu, pelo menos, Constantino Guardador de Vacas e de Sonhos, como ele próprio conta na breve introdução a este livro.

 

Eliminei um único poema: o «Censo populacional do Vietnam». Homem de Palavra(s) não perde com isso em poder de intervenção e o livro, segundo me parece, só ganha em ser aliviado de uma composição frouxa, que não se aguentava uma vez terminada a agressão americana.

 

Em meu entender, a poesia de intervenção tem de partir de um grande sentido de justiça ou de revolta que o poeta fez seus, como o amor num poema de amor, e tem de ser discreta se não quiser ser demagógica. Era assim quando havia censura (ou o eufemístico «exame prévio») e é assim hoje, quando toda a arte em princípio é livre. Por isso eu contraponho à palavra «pátria», que reputo arrogante, a evocar bandeiras desfraldadas e desfiles militares, quando em Portugal ainda não havia nada (estou, como é óbvio, a parafrasear um verso meu: «No meu país não acontece nada, do poema «Morte ao meio-dia», incluído em Boca Bilingue) e hoje volta a parecer não acontecer nada, contraponho – dizia eu – à palavra «pátria» a palavra «país», humilde e discreta, como digo designadamente em «Aos homens do cais»: «Portugal não é pátria mas país». No poema de Transporte no Tempo, intitulado «Peregrino e hóspede sobre a terra», recuso a própria noção de país: «Sou donde estou e só sou português / por ter em portugal olhado a luz pela primeira vez». E em «À memória da Céu», levanto o problema da nacionalidade dos mortos: «Qual é a tua nacionalidade / tu que antes eras portuguesa?» No entanto, neste livro que eu considero realista, permito-me liberdades como «Os bravos generais», poema sugerido pela queda do alto de um escadote do general Câmara Pina, mas recuso liberdades como a inclusão de um poema escrito sobre a recepção pelo Papa aos chefes dos movimentos de emancipação dos territórios coloniais sujeitos ao jugo militar português.

 

Alguém me fez um reparo por, no poema da série «Portugal sacro-profano», intitulado «Lugar onde», eu me ter referido aos «dorsos alvos» dos comboios. Mas isso vem da minha experiência suburbana da linha de Sintra, experiência semelhante à dessa pequena obra-prima de Rui Cacho que é o conto «O comboio, Maomé e eu», incluído no livro Funeral sem Banzé, livro esse que, embora datado de 1967, escapou à quase totalidade da crítica literária portuguesa, que efectivamente não merecia semelhante livro, de um escritor novo e quase completamente desconhecido, além disso edição do autor, reflexo de timidez e não de ausência de talento, de muito talento.

 

Nesse poema «Lugar onde», recorro muito ao labor limae dos clássicos. Em poesia, como se sabe, é muito importante o trabalho de limar, emendar, corrigir, até conquistar a naturalidade, se possível a simplicidade, que são uma conquista e não um dado gratuito dos deuses. Nesse aspecto, sem Sá de Miranda seria impensável Camões. Quanto não terá custado a António Botto, um dos maiores poetas portugueses deste século, essa pequena maravilha que é «À memória de Fernando Pessoa». Voltando ainda a «Lugar onde», eu creio que é um poema de intervenção e o continua a ser agora quando Abril passou e, no entanto, não sabemos ao certo em que mês estamos. Chamar a Portugal «país sem olhos e sem boca» creio que é elucidativo e depois dizer «país palavra húmida e translúcida / palavra tensa e densa com certa espessura / (pátria de palavra apenas tem a superfície)». No final do poema, procedo ao apanhado, à recolecção da enumeração dos três temas esparsos afinal ao longo dos versos que acabo de alinhar: país, poema, homem. E talvez sejam esses os três grandes temas deste livro.

 

Já no poema «Vila do Conde», pertencente à mesma série, que já vem de Boca Bilingue e que não sei ainda se terá continuação («Portugal sacro-profano» foi um título que fui buscar a um livro editado em Lisboa na oficina de Miguel Manescal da Costa, impressor do Santo Ofício, no ano de 1767 por Paulo Dias de Niza), no poema «Vila do Conde», dizia eu, o que assegura a progressão do poema é um processo diverso: a repetição do verso o «lugar onde o coração se esconde», que consegue chegar até à última proposição do poema, entre as mais variadas rimas, sem rimar; ao chegar aí, apresenta uma rima completa ou consoante com »Conde» (Vila do Conde, finalmente nomeada, era o nome da terra que desde o princípio se esperava, criando como que um suspense) e uma rima incompleta ou toante com a palavra-rima do verso intermédio: «fronte». A rima final entre dois versos no final de um poema sem rimas até aí devo-a à lição de António Botto. Apraz-me mencionar esta dívida quando ainda resta um certo prestígio de José Régio. O poeta da pureza do ritmo é verdadeiramente António Botto. É uma pena que não haja uma boa edição das suas Canções.*

 

Mas uma rima a que muito recorro é aquela a que alguns autores chamam aliterante: rima parcial em que, a partir da última sílaba tónica, se repetem os sons consonânticos e não os sons vocálicos. Um exemplo dessa rima encontramo-lo, logo neste livro, na composição «Os cemitérios tributários», que começa por se verificar logo no título, com a oposição das vogais tónicas uma à outra, mantendo-se idênticos os restantes sons num e no outro caso a partir da sílaba tónica. Trata-se de um pequeno afloramento de neobarroquismo na poesia moderna, o que não exclui a sua sedução afim pela poesia clássica. De olhos postos no futuro, o poeta moderno escreve com toda a poesia anterior, com toda a poesia e a arte anteriores e contemporâneas por trás. Em «Os cemitérios tributários», rimam «unha» – «minha», «jaspe» – «chispe», «asse-o» – «ócio», «barco» – «berço», «vento» – «minto», «vício» – «violáceo», «livra» – «palavra», «borco» – «verso», e, além disso, declaro: «Do jogo ninguém me livra». Em «Um dia não muito longe não muito perto», meditada previsão da minha ambicionada morte, edifico o poema sobre as palavras-rima «farto», «perto», «hirto», «absorto», «surto», em que faço suceder as vogais, a, e, i, o, u, para depois recoligir as palavras-rima em dois simples versos – «um pouco farto não muito hirto e vagamente absorto / não muito perto desse tal surto» – e fazer rimar consonanticamente «absorto» com «morto» dentro, creio eu, de um clima de fluidez que não altera o mínimo que seja a naturalidade do que tinha para dizer. Uma noite, na Cooperativa Piedense, onde fui na companhia da Maria Teresa Horta e Armando da Silva Carvalho, pediram-me precisamente que desmontasse este poema. Não o fiz então por falta de vontade. Se quem mo pediu agora eventualmente me ler que releve a falta. Quem desmontava muito bem os seus poemas em grupo era Vitorino Nemésio. Guardo uma inolvidável recordação de uma sessão dessas. Foi na noite de 19/III/1965 em casa de Luís Forjaz Trigueiros. Conservo, como recordações dessa noite, a primeira edição do Livro de Sonetos que Jorge de Lima trouxe, já completamente elaborado, de uma clínica do Rio de Janeiro onde dera entrada para uma cura de sono, primeira edição com dedicatória autógrafa do vate brasileiro para Forjaz Trigueiros e por este endossada a mim e dentro, num papel solto, autógrafa também, uma «Verborreia poeticástrica» do mestre recentemente desaparecido que começa: «A minha emoção gelada / Foi há muito aproximada...»

 

A rima deve ser um apoio e não uma cadeia. Também em «Na morte de Nicolau» tenho um exemplo de rima aliterante, ao fazer rimar «subi-la» com «amarela», num esquema de rima interpolada.

 

Alguém estranhará, porventura, que eu, num poema como «Sexta-feira sol dourado», imortalize afinal a figura do ex-almirante Henrique Tenreiro, de tão triste memória para todos nós. Mas eu nomeio, conforme os casos para exaltar ou para condenar e, para este último efeito ninguém melhor que o antigo dono dos pescadores e do peixe português. Ainda me lembro do carnaval que ele, juntamente com outras pessoas do antigo regime como o Eng.º Daniel Barbosa, organizou à saída da câmara ardente do Eng.º Paulo de Barros, irmão do Prof. Henrique de Barros mas cunhado de Marcello Caetano. Nunca vi semelhante falatório, semelhante exuberância de gestos, semelhante hipocrisia a dois passos de um defunto. Eu viria a repetir o meu ataque ao nefando almirante no jornal A Bola, que de um modo geral não ia à censura e onde eu, em princípio, podia ser muito mais livre. Foi a propósito da atribuição, pela Santa Sé, da Ordem do Santo Sepulcro, ao «ilustre homem do mar». Estas atribuições não eram nem são para admirar. Aquando da morte do Cardeal Cerejeira, que infiltrara nas consciências os temores e receios que Salazar instilara exteriormente na ordem – nas ruas, nos fortes, nas próprias casas particulares – também a efeméride foi saudada pelo poder civil como uma perda nacional. Não devemos ter demasiadas ilusões acerca do poder, a não ser que este assuma o nome de Vasco Gonçalves, que aliás não devia poder por aí além.

 

Em «O Portugal futuro» já nos surge um país descolonizado - «Poderá ser pequeno como este / ter a oeste o mar e a espanha a leste». José de Magalhães Godinho, esse grande português, na carta em que me agradecia o livro, sublinhava como eu estava disposto a renunciar ao passado como condição do futuro: «Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz / mas isso era o passado e podia ser duro / edificar sobre ele o portugal futuro». O peixe da infância é mesmo o sável. Vinha nas cheias do Rio Maior, quando os barcos navegavam entre as cepas. Neste poema aparecem as assonâncias tão do meu agrado: «aonde o puro pássaro é possível».

 

Em «Cinco palavras cinco pedras», contrapunha «antigamente» a «hoje», «escrevia» a «tenho» e manifestava a minha desistência. Isto, repare-se bem, era em 1969 ou 1968. Depois abundante água correu sob as pontes da minha posição de desistente. Quem então me acusou de desistência não sei se o faria hoje. Além de que era estender o ambiente de um poema, normalmente breve, ao clima de todo um livro. Aliás, como me observou, salvo erro, o meu amigo João Bénard da Costa, «Nós os vencidos do catolicismo» seria o poema de uma geração, onde a frase «meu deus porque me abandonaste» significaria, como em José Régio, um definitivo abandono dos homens por parte de Deus. Cristo na cruz ver-se-ia completa e definitivamente abandonado.

 

A influência do cinema é notória neste livro, mais que em qualquer outro meu. Mesmo poemas realistas como «Aos homens do cais» e «Os estivadores» foram escritos sobre diapositivos, com o campo do olhar já claramente delimitado. Mas «Humphrey Bogart» e principalmente «No way out», «Vício de matar» e «Esplendor na relva» são poemas onde o cinema me ensinou a ver. No meu livro Transporte no Tempo ainda aparecerá «Na morte de Marilyn» mas o poema limita-se à tragédia da artista, como protótipo de tragédias semelhantes que mais ou menos de perto acompanhei.

 

Ninguém, no futuro, nos perdoará não termos sabido ver, esse verbo que tão importante era já para os gregos. É de notar que, em «Esplendor na relva», se recolhe o momento preciso em que Natalie Wood, actriz maravilhosa, que no filme encarna a delicada e fresca figura de Deanie Loomis, muito bem dirigida por Elia Kazan, procura em vão comentar numa aula um excerto de um poema de Wordsworth sobre a fugacidade da vida e a necessidade, como condição de felicidade, de colher a flor no próprio instante em que floresce. Em «No way out», avulta o sentimento da pequenez humana ante os problemas mundiais, O real, o mais real é o homem. Recorro, para isso, à antítese: «a dois passos de mim» – «em beavar canal».

 

Em «Quadras da alma dorida» utiliza-se a palavra «quadratins», como desvio linguístico da linguagem técnica e consequente forma de procurar provocar o interesse do leitor. Recorre-se também à antítese para, ante a ironia da oposição «divindade» – «bilhete de identidade», dar o humor da condição humana. No «Soneto superdesenvolvido», em que também entra o humor, poema de que aliás não gosto muito, há uma crítica explícita aos «bons sentimentos», que afectam negativamente não só a qualidade da literatura como a qualidade da vida.

 

Conservo «Necrologia», pequena amostra do insolúvel da morte perante o desconhecimento irremediável e para sempre de um homem que, embora aconteça diariamente, dessa forma me atingiu duma maneira particular, nem eu sei bem porquê. Também, ao contrário do «Censo populacional do Vietnam», sobrevive à morte da primeira edição deste livro, indubitavelmente de menor exigência estilística do que, por exemplo, Boca Bilingue, mas onde, em contrapartida, o soneto, para citar um só caso, atinge 15,5% das composições, um poema como «Um prato de sopa», um poema tão pouca coisa, tão simplificado, tão pouco linguagem inovadora, tão pouco função poética da escrita.

 

Em «Os estivadores», temos a amostra de uma poesia de intervenção: só eles sabem «o preço de estar vivo sobre a terra»; «podem outros roubar-lhes a alegria». Só há lugar, se é que há, para algum humanismo: «eles são a moderna divindade». «A natureza é certo muito pode / mas um homem de pé pode bem mais». Aqui retomo a «Ode do homem de pé», penúltimo poema de Aquele Grande Rio Eufrates, o meu primeiro livro.

 

«A minha tarde», como muitos outros poemas meus, é um poema voluntário, sem inspiração nem sequer emoção. Jorge de Sena é mencionado por ter, em Pedra Filosofal, um poema, aliás dedicado à memória de Sá de Miranda, intitulado «... De passarem aves», que, pelo menos nesse aspecto, me influenciou a mim. «Sou novo» – «Era novo»: «Mudou um simples tempo de verbo e tudo mudou», como digo numa das «Imagens vindas dos dias» insertas no final deste livro.

 

Relativamente a «Algumas proposições com crianças» estou plenamente de acordo com ele** quando, em A Poesia Portuguesa Hoje, se refere ao papel da proposição nos meus poemas. Claro que eu conquisto os meus poemas palavra a palavra mas sempre passo pela proposição como unidade aglutinadora. Isso é particularmente visível nalguns poemas deste livro, como, por exemplo, «Senhor da palavra», onde «Senhor» funciona como simples bordão, «Mudando de assunto», «Da poesia que posso», «Corpo de Deus», e naturalmente, «Algumas proposições com pássaros e árvores que o poeta remata com uma referência ao coração». Em «Senhor da palavra», encontramos a rima da palavra final de um verso com o final do hemistíquio seguinte: «pouco» – «louco». Este processo será levado à exaustão designadamente em A Margem da Alegria. Quando, no mesmo poema, falo de prestidigitador do meu prestígio, estou a tirar partido de duas palavras da mesma família. O verso «compro as noites de sono uma por uma» é evidentemente autobiográfico e refere o recurso aos barbitúricos. «Oblívios» é uma palavra decadentista e suponhamos que constitui uma homenagem ao Sérgio, um dos maiores amigos meus, hoje perdido no Brasil. «Lixo» e «caixote» rimam aliteradamente.

 

Alguns antologistas de livros escolares têm manifestado preferência pelo poema «Oh as casas as casas as casas», uma curiosa preferência. Mas alguns referem o poema ao livro O Problema da Habitação – Alguns Aspectos, o que significa desconhecer fundamentalmente o clima deste meu livro. Semelhante confusão só se explica em quem se ficou pelo título, voluntariamente prosaico num livro que é substancialmente poético, segundo a lição de T.S. Eliot.

 

Sobre «A rapariga de Cambridge», houve um jornalista que falou das minhas estadias em Inglaterra e de como, durante uma viagem de comboio, conhecera a inspiradora do poema. Depois de ler isto, disse de mim para comigo: agora já posso falar de mim, já posso ser autobiográfico.

 

«Vat 69» joga com a ambiguidade entre a conhecida marca de whisky e a implícita crítica à figura do vate, tudo isto escrito em 1969. Trata-se, genericamente, de uma homenagem a Herberto Helder, que acabara de me mandar uma plaquette, editada por Valentim de Carvalho, com um longo poema, que tinha como segundo hemistíquio no segundo verso: «Era depois da morte». Num tempo sentado, o poema de Herberto Helder, trata-se de um jogo, aliás sedutor, da imaginação, ao passo que no meu se trata de uma simples recuperação a infância. Deve ser o poema meu onde mais falo da infância, tendo em conta mesmo essa «Fala de um homem afogado ao largo da Senhora da Guia no dia 31 de Agosto de 1971». É curioso que a ideia da morte me aproxime tanto da infância.

 

Sobre o «In memoriam», poema de que também, como é óbvio, não gosto muito, devo dizer que não conheci pessoalmente Manuel Bandeira nem Cristovam Pavia. O primeiro nunca veio a Portugal e com o segundo devo-me ter cruzado alguma vez, porque tínhamos amigos comuns mas a verdade é que nunca falei com ele. Mas trata-se de uma homenagem à poesia quer de um quer de outro. Sobre Manuel Bandeira tenho aliás dois ensaios, incluídos Na Senda da Poesia.

 

Em «Esta Rua é alegre» aparece um princípio fundamental da minha estética: «Não costumo por norma dizer o que sinto / mas aproveitar o que sinto para dizer alguma coisa».

 

O poema «Orla Marítima» saiu primeiro em O Tempo e o Modo. O primeiro verso é: «O tempo das suaves raparigas». O penúltimo verso do soneto n.º 4 do de António Nobre é: «ó suaves e frescas raparigas». De poeta para poeta quase cem anos volvidos, houve a supressão de um simples adjectivo.

 

Ficam nos meus papéis observações acerca de outros poemas. Mas vai longo este prefácio e não convém que o cão volte por demais ao seu próprio vómito, para não terminar sem a alusão bíblica inevitável em quem durante tanto tempo a leu.

 

Já disse que, relativamente à primeira edição, suprimo o poema «Censo populacional do Vietnam». Cabe-me agora dizer que incluo agora, pela primeira vez, cinco novas «Imagens vindas dos dias» e que atribuo título a todas.

 

Monte Abraão, 18 de Abril de 1978.

Ruy Belo

 

* Hoje em dia existe uma excelente da Quasi Edições, organizada por Eduardo Pitta (nota minha).

** Gastão Cruz (nota do editor).

 

 Ruy Belo, Todos os Poemas (vol. I), pp. 243-51; Assírio & Alvim

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