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Zibaldone

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08
Ago16

Samo par Godina za Nas

Francisco Freima

Na senda dos êxitos alcançados com S' Vetrom uz Lice e Ljubav, os Ekatarina Velika lançariam em 1989 o seu quinto álbum, Samo par Godina za Nas (Apenas Alguns Anos para Nós). Gravado na cidade sérvia de Novi Sad, continha alguns dos maiores sucessos da banda. 

 

Uma das virtudes deste álbum é a forma como cresce até à sua música principal (Par Godina za Nas) e depois vai em decrescendo rítmico até à última faixa, Svetiliste (Santuário). Sendo praticamente impossível destacar apenas três músicas, abro uma excepção e contemplo o dobro das entradas. As minhas escolhas são as seis músicas que constituem a primeira parte em crescendo: Iznad Grada, Krug, Srce, Sinhro, Nisam Mislio na To e Par Godina za Nas. Iznad Grada (Acima da Cidade) tem algumas ressonâncias da Budi Sam (a música de abertura do S' Vetrom Uz Lice). Mas onde esta é serena, a outra estava impregnada de uma boémia vertiginosa. Por oposição, em Iznad Grada domina um espírito sonhador, onde a própria cidade sorri à juventude. A faixa seguinte, Krug (Círculo), descreve o ciclo da vida, no qual tudo é divertido e cansativo ao mesmo tempo. O sujeito lírico acaba por quebrar o círculo, talvez numa tentativa de superar o «sim» e o «não», todas as oposições que nos colocam num lado em função do outro. Já Srce (Coração) foi das músicas mais populares dos EKV, conta a história de um amor não-correspondido entre uma rapariga incapaz de arriscar a sua gélida pureza numa relação, lamentando-se o autor por também não ter sido capaz de encontrar a palavra certa que os unisse. Pese o tema, é uma canção alegre, lembrando a dualidade de Radostan Dan. Quanto a Sinhro (Sincronização), é a minha música preferida. Retrata a angústia de alguém disposto a derreter o próprio sol para fundir os mundos que o separam do amor. A ânsia requer proximidade imediata e o belo ritmo da música encarrega-se de nos transmitir essa urgência. Seguidamente, aparece Nisam Mislio na To (Não Pensei Nisso), preenchida pela sensação de estranheza da vida urbana e a descontracção de quem nunca se tinha dado ao trabalho de pensar nisso. Por último, Par Godina za Nas (Alguns Anos para Nós) antevê a descida ao inferno da Jugoslávia. Aborda a loucura inerente à vida quotidiana, nomeadamente a celebração de «histórias sem sentido», numa clara alusão ao regime. Permeada pela fria angústia de quem só tem alguns anos para viver, traduz a banalidade (como em Olovne Godine) e o desencanto de toda uma geração. O potente refrão («Voli me onako kako nikad nisi volela»/«Ama-me como nunca amaste») assume o desespero da situação em que se encontram, o abismo para onde caminham. 

 

Volvidos três anos, as premonições de Par Godina za Nas concretizar-se-iam: a juventude jugoslava vestiria a farda para combater entre si numa sangrenta guerra civil.

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