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Zibaldone

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20
Fev17

Serviços secretos

Francisco Freima

SIS.pngVolta e meia, surgem notícias sobre uma possível fusão do SIED com o SIS. Num mundo ideal, seria a favor; no regime corrupto em que vivemos, sou contra. Serviços secretos unificados só fazem sentido em países estáveis. Fruto de condicionamentos histórico-culturais, Portugal está longe de apresentar esse quadro de estabilidade, sobretudo ao nível dos caracteres: o português médio não consegue guardar um segredo. Se sabe de alguma coisa, tem logo de contar a toda a gente. Isso deriva tanto da herança católica (com o pernicioso hábito da confissão) como do temperamento forjado em tardes de marialvismo e noites afadistadas...

 

Se Portugal fosse um país a sério e os serviços secretos algo mais do que uma gargalhada, eu defenderia a fusão. Penso que depois dessa união deveria ser criado um departamento dos «Ilegais». Este até pode existir actualmente, mas duvido: se existisse, já teria havido alguma fuga de informação, porque, lá está, neste país ninguém guarda segredos de Estado. Aliás, a decadência dos serviços secretos um pouco por todo o mundo leva-me a crer que já não se formam espiões à moda soviética. Nesses tempos, o KGB, no Primeiro-Directorado Chefe, treinava homens e mulheres para serem perfeitos cidadãos de outros países. Os jovens adultos demoravam entre dez a quinze anos nesse processo, findo o qual eram enviados para as suas pátrias emprestadas. Geralmente, eram chamados a cumprir missões esporádicas no estrangeiro, mas alguns tornavam-se agentes «adormecidos», que a qualquer momento podiam ser chamados a intervir. Durante a formação, além de aprenderem o idioma e a cultura do país-alvo, tinham o habitual treino militar. Durante a aprendizagem, o único contacto do formando era o seu formador. Ninguém mais lhe punha a vista em cima nas instalações onde treinava. Embora não fossem utilizados em missões de contra-espionagem, os «ilegais» viviam sob identidades falsas na própria URSS. Ninguém sabia da sua existência, somente as chefias do KGB e do PCUS estavam inteirados destes pormenores. Uma formação perfeita dá azo a profissionais perfeitos: durante décadas, a URSS seria conhecida pelos seus espiões excepcionais. 

 

Voltando a Portugal: se queremos bons serviços de espionagem, temos de criar um departamento destes. Somos um país periférico, a contra-espionagem não interessa, na medida em que ninguém cobiça os nossos segredos de Estado (se é que os há ainda). A actividade teria de ser dirigida para a espionagem industrial, através da infiltração dos agentes em posições-chave nas empresas cujos segredos cobiçássemos. Claro que manter um departamento destes envolve custos incomportáveis para um país falido, além de não servir a agenda dos políticos, que gostam de aparecer na foto e de promoverem tudo o que sejam casos de sucesso. 

 

Assim, mais vale ficarem quietos. Ou então mudem o símbolo do SIS, porque um milhafre assustado no meio de um bordado de castelos não transmite grande imagem...

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