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Zibaldone

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22
Mai16

Subserviência

Francisco Freima

Kim Kardashian diamante de Sindika.jpgO diamante de Sindika é a última polémica a envolver Isabel dos Santos. Supostamente, o marido comprou-o para a sua mais-que-tudo; objectivamente, o clã Santos montou um esquema para sonegá-lo ao povo angolano. Quem quiser aprofundar, Maka Angola explica. A festa de branqueamento apresentação do maior diamante de Angola foi abrilhantada por uma série de palhaços, como Kim Kardashian, Bella Hadid, Chris Tucker, Milla Jovovich, Daniel Nascimento ou Sharam Diniz – em relação a estes dois últimos, o que eu me vou rir quando o regime cair e tiverem de se justificar perante os angolanos.

 

Claro que em Portugal ninguém quer saber. Ainda há um ano, o «consensual» Rui Moreira lembrou-se de condecorar o marido de Isabel dos Santos, debaixo do silêncio cúmplice da comunicação social (excepto uns poucos jornais, como o Público). Parafraseando Alberto Gonçalves, caso fosse de direita... Ah, esperem: ele é de direita! Se há característica que lastimo nos Portugueses, é a sua tendência para a Doutrina Monroe em todos os aspectos da vida. Existe uma ditadura em Angola? Se é o governo de facto, isso não interessa, importantes são as negociatas. Lembra-me a história de um sujeito (Fernando Falcão), grande vira-casacas e inimigo de Portugal. Este palerma, enquanto os soldados portugueses combatiam na Guerra Colonial, lembrou-se de criar um movimento cívico (FUA) pela independência de Angola. Até aí tudo bem, embora eu, discordando da guerra, jamais assumiria posições de quinta-coluna contra a minha pátria. Após alguns anos, Falcão extinguiu a FUA (Frente de Unidade Angolana) e voltou à sua vidinha... chegado o 25 de Abril, lembrou-se de desenterrar esse projecto político, ganhando a confiança da população branca, que via nele alguém capaz de defender os seus interesses. No entanto, o MPLA cortou cerce as ambições da FUA e Fernando Falcão, mostrando uma enorme falta de carácter, passou a entoar loas ao MPLA. Isto numa altura em que Luanda fazia a contagem decrescente para a independência e os brancos sofriam toda a espécie de ataques por parte das FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola, pertenciam ao MPLA), do ELNA (Exército de Libertação Nacional de Angola, integrava a FNLA) e da UNITA. Recordemos o testemunho de uma dessas pessoas que perderam tudo, Valdemiro de Sousa, à época jornalista no Jornal de Angola:

 

«O engenheiro Fernando Falcão, em quem a maior parte das gentes confiou dado que a FUA queria uma Angola para todos e próspera, fracassando em toda a sua acção política após o 25 de Abril veio a cair noutro fracasso, desta vez altamente condenável pela população que lhe fora afecta, aviltando-se demasiado. Tratava-se de um capitalista com muitos bens no Lobito, bens que teria de abandonar ou defender. Acabou por cair na hipocrisia e no ridículo vestindo a capa de "camarada", passando a dizer que o MPLA é que era bom, que era o movimento das massas.»

 

Valdemiro de Sousa, Angola: A Guerra e o Crime, p. 164; Editorial Formação

 

De resto, uma reportagem do Público sobre este senhor, em 2011, entra logo a matar sobre a população branca que vivia em Angola na altura da independência:

 

«Viviam em Angola 172 mil brancos. Era a maior comunidade europeia da África subsariana, depois da África do Sul. Nem todos eram reaccionários, ou obedeciam à imagem do colono boçal. Havia pequenos grupos que defendiam uma Angola independente, com eleições democráticas inclusivas do voto dos africanos - divididos entre "indígenas", sem direito a cidadania ou bilhete de identidade (a esmagadora maioria), e "civilizados" (uma minoria). O engenheiro Fernando Falcão, um desses progressistas, hoje com 87 anos, recorda aqueles tempos conturbados.»

 

Errado. A maior parte desses 172 mil brancos eram progressistas e não correspondiam à imagem do «colono boçal» (?). Eram pessoas trabalhadoras, muito mais avançadas em termos de ideias/mentalidade do que os seus compatriotas da metrópole. A maioria defendia a independência angolana e uma transição ao nível daquela que a África do Sul realizaria sob a presidência de Nelson Mandela. O engenheiro Falcão não era um progressista, era um vira-casacas que, após trair a confiança de muita gente, regressou a Angola, como escreve o jornalista do Público no final da reportagem:

 

«Em 1976, a pedido do actual presidente angolano, José Eduardo dos Santos, foi para a administração dos Caminhos de Ferro de Benguela, que acumulou com a administração do Porto do Lobito. Em 1986 veio para Portugal, continuando a colaborar com Angola. Reformou-se em 1992.»

 

Em suma, o típico português que não se importa de negociar com o diabo, desde que resulte em benefício próprio.

Indiferente a festas VIP, o povo angolano continua a sofrer às mãos do regime, nomeadamente na região das Lundas. Aconselho vivamente a leitura do Maka Angola para se inteirarem destas situações.

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