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Zibaldone

Zibaldone

24
Jun17

O terrorismo da corrupção

Francisco Freima

Foto de Habibou Kouyate AFP.jpg

Esta semana foi noticiado um ataque terrorista nos arredores de Bamako, capital do Mali, na sequência do qual morreu um militar português. O sargento-ajudante Fernando Paiva Benido foi baleado mortalmente numa troca de tiros com os terroristas, o que só prova a sua coragem para enfrentar a morte com galhardia. Deixa mulher e duas filhas menores de idade, a quem desde já endereço as minhas mais sentidas condolências.

 

A violência no Mali tem sido a tónica dominante desde 2012, quando a fragilidade governativa tornou o país numa presa fácil para os movimentos terroristas. A Al-Qaeda do Magrebe Islâmico tem estado particularmente activa nas zonas rurais, aproveitando o vazio deixado pelo poder central para cativar as populações locais para a sua causa. Durante anos, as forças da autoridade foram alienando os seus apoios junto dos habitantes das aldeias, curvados ao peso de um neofeudalismo que exige o pagamento de subornos, exercendo um poder discricionário através de ameaças e fuzilamentos. Neste contexto, os jihadistas apareceram aos aldeãos como uma espécie de salvação vinda dos céus, muito embora alguns não os vejam com bons olhos, pela pressão que fazem no recrutamento de elementos para as suas fileiras. As zonas onde os jihadistas impõem a lei são vistas como mais seguras, tendo a aplicação da Sharia surtido o efeito desejado, a aparência de uma moralização da vida pública. Enquanto isso, os direitos das mulheres regridem e outros países, como o Burkina Faso, começam a ser igualmente contaminados pelo vírus do terrorismo transnacional.

 

Em Paris, o presidente Emmanuel Macron tenta gizar uma estratégia para pôr fim ao terror que assola a região. Existe um vasto contingente de tropas gaulesas na zona, ou não fosse a África Ocidental o território onde se concentram os principais interesses da política externa francesa naquele continente. O maior desafio, patente no artigo da Jeune Afrique, será dotar o Estado maliano dos instrumentos necessários para acabar com a impunidade nas suas hostes. No outro dia escrevi que a corrupção mata, esqueci-me apenas de juntar aos exemplos que dei os casos terminais de países como o Mali. Explicar a morte de um militar português como tendo sido a vítima infeliz de um ataque terrorista é enviesar o escopo. Na origem da morte do sargento Paiva Benido esteve um Estado profundamente corrupto.

17
Jun17

Um país instável

Francisco Freima

Há duas semanas escrevi sobre as eleições no Lesotho. Pois bem, a oposição venceu o escrutínio e Tom Thabane foi eleito primeiro-ministro, conseguindo o seu partido, o All Basotho Convention, 48 assentos parlamentares contra os 30 obtidos pelo Democratic Congress, de Pakalitha Mosisli.

 

Os receios acerca de um possível golpe de estado não se confirmaram, graças também à posição assertiva da África do Sul, cujos dirigentes afirmaram que não iriam tolerar um cenário desses no Lesotho. Mas se o perigo castrense parece dissipado, a violência politicamente dirigida ameaça tornar-se uma realidade. Na véspera da tomada de posse, Dipolelo Thabane, mulher actualmente separada de Tom Thabane, foi assassinada. O novo primeiro-ministro já reagiu à morte da sua mulher, revelando estar profundamente chocado com a situação. Certo é que Tom Thabane não pode confiar em quase ninguém para garantir a sua protecção e a da sua família: as forças armadas estão do lado do antigo poder, pelo que o primeiro-ministro irá optar por ter elementos da polícia a velarem pela integridade física daqueles que lhe são próximos. Enquanto isso, a oposição deu mais uma prova de imaturidade, ao boicotar a cerimónia de investidura de Thabane no cargo. Esta arma do boicote não é nova, mas confirma um padrão de comportamento dispensável.

 

Avizinham-se tempos difíceis para o enclave montanhoso, dividido entre a esperança no presente e as sombras do passado.

03
Jun17

Eleições no Lesotho

Francisco Freima

ABC-supporters.jpg

Hoje é dia de eleições no Lesotho, o micro-estado que é um enclave rodeado pela África do Sul. Mais de 30 partidos concorrem às eleições em 80 círculos, embora os principais candidatos nesta luta sejam o Democratic Congress (do actual primeiro-ministro, Pakalitha Mosisili) e o All Basotho Convention, liderado por Thomas Thabane.

 

Consideradas pela oposição como as mais importantes eleições da história do Lesotho, dado o grau de corrupção e de pobreza a que o país chegou, espera-se que todos estejam à altura da responsabilidade que o momento exige. Paira no ar a ameaça de que as forças armadas poderão não aceitar bem a vitória de Thabane, o líder da oposição recentemente regressado ao país, após um exílio voluntário de dois anos na África do Sul. Um bizarro pedido feito pelas forças armadas ao governo, o de ocupar posições em 22 pontos estratégicos do montanhoso país, está a suscitar algumas dúvidas quanto às intenções dos militares.  Ademais, o clima de instabilidade tem tido reflexos na economia do reino, incapaz de prover a população do mais básico dos básicos: escolas, hospitais, estradas, electricidade, água, saneamento... Estas são as terceiras eleições legislativas em cinco anos.

 

Veremos o que acontece. Como neste país não existem sondagens, o apuramento de quem vai à frente define-se mais pela dinâmica da campanha do que por dados mensuráveis. A afluência aos comícios organizados pelo ABC tem sido ligeiramente superior aos do DC, daí que surja com alguma vantagem, até por ser oposição. Para segunda-feira são esperados os resultados oficiais.

27
Mai17

27 de Maio de 1977

Francisco Freima

Persguição ao Grupo de Nito Alves.jpg

Este fim-de-semana vou estar em Pombal, numa iniciativa do Bloco de Esquerda. Ainda assim, e como passam hoje 40 anos do 27 de Maio de 1977, deixo-vos algumas ligações sobre este capítulo negro da história angolana.

 

Para quem não sabe, o 27 de Maio foi o dia em que Angola assistiu ao confronto decisivo entre as duas principais correntes dentro do MPLA: a do líder Agostinho Neto e a de Nito Alves, acusada de «fraccionismo». Com a derrota de Nito Alves, começaram as purgas e os fuzilamentos de elementos da facção derrotada. Uma das figuras mais marcantes dessa época foi Sitta Vales, uma jovem militante portuguesa do PCP, que haveria de ser presa e fuzilada pelo regime, por supostas ligações ao KGB. O seu marido, José Van-Dúnem, seria também fuzilado, destino comum à maioria dos implicados (foram igualmente mortos inúmeros inocentes). Ninguém sabe ao certo quantas pessoas morreram nas purgas, mas estima-se um número entre os 15 000 e os 80 000. Nesta altura, as relações entre Luanda e Moscovo esfriaram, por existirem suspeitas de que a URSS queria apear Agostinho Neto do poder – na hora decisiva, valeu-lhe o apoio prestado pelas tropas cubanas.

 

Esquerda.net tem um dossier inteiro dedicado ao tema. Aconselho a leitura, porque é mesmo muito interessante.

13
Mai17

A crise no Sudão do Sul #3

Francisco Freima

JM Lopez EPA.jpg

 JM Lopez/EPA (sul-sudaneses a fugirem da guerra)

 

No Sudão do Sul mantém-se a crise humanitária, adensada pela guerra que lavra naquele país desde 2013. No entanto, parece que a imprensa portuguesa começa a despertar para este problema, tendo nos últimos dias publicado uma série de notícias referentes aos milhões de crianças sem casa.

 

A oposição tem pedido a intervenção da comunidade internacional no conflito, afirmando que o presidente Salva Kiir está a realizar uma política de genocídio contra as tribos que não sejam dinka. Ao genocídio sucedem-se igualmente os ataques contra trabalhadores humanitários, incapazes de suster o ímpeto saqueador das facções em confronto. A pilhagem de alimentos num país onde 100 000 pessoas já estão a passar fome (e em que o Estado gasta metade do orçamento em armamento) acaba por ser a resposta da impotência perante a subida dos preços, garantida por uma inflação que escalou até aos 900%. Como vivemos num mundo global, não basta declarar a independência para que a nossa autonomia seja estanque em relação aos demais países: a crise no Sudão do Sul tem afectado vizinhos como a República Democrática do Congo e também o Uganda, devido ao decréscimo das trocas comerciais entre os dois países e à evasão fiscal, pois não existe um controlo efectivo das fronteiras.

 

Os milhões de deslocados representam também um problema para a União Europeia. Incapaz de uma política coerente de apoio aos países africanos, a UE continua a colocar a cabeça na areia enquanto milhares de refugiados sujeitam-se a tudo para atravessar o Mediterrâneo. Entre eles, estão os sul-sudaneses.

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