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Zibaldone

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26
Mar16

Ideologia

Francisco Freima

Ideologia Cazuza.jpgNo que à música brasileira diz respeito, este é, a par do Exagerado, o meu álbum preferido. Logo no primeiro tema, Ideologia circunscreve os ideais colectivos ao coração partido de quem já não acredita em nada, preferindo ficar «em cima do muro.» Boas Novas desenvolve-se na antítese criada pelo poeta, que vê a cara da morte estando ela viva. O Assassinato da Flor é só uma das melhores músicas brasileiras de sempre, surpreendendo pela simplicidade e pelo contraste entre a ideia do assassinato e a imagem da flor. A Orelha de Eurídice leva-nos para o bas-fond carioca, lembra-me até um poema de Reinaldo Ferreira sobre uma Rosie:

 

Eu, Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia

Que partout, everywhere, em toda a parte,

A vida égale, idêntica, the same,

É sempre um esforço inútil,

Um voo cego a nada.

Mas dancemos; dancemos

Já que temos

A valsa começada

E o Nada

Deve acabar-se também,

Como todas as coisas.

Tu pensas

Nas vantagens imensas

Dum par

Que paga sem falar;

Eu, nauseado e grogue,

Eu penso, vê lá bem,

Em Arles e na orelha de Van Gogh...

E assim, entre o que eu penso e o que tu sentes

A ponte que nos une – é estar ausentes.

 

Reinaldo Ferreira, Poemas

 

Além da «orelha» remeter para Van Gogh, penso que faço mais esta associação pela antítese da união na ausência – Ideologia está cheio delas. A quinta música (Guerra Civil) torna esse jogo mais tácito («tem sempre um lugar aonde você não está»), embora também fale de «freiras lésbicas assassinas» e de «fadas sensuais.» O início da canção é lindo: «páro no meio da rua/me atropelei de mais/alguém pergunta as horas/ou então vai me matar». A facilidade com que Cazuza fundia o mundo interior com o ambiente em redor, criando imagens surpreendentes, evidencia aquilo que era: o Poeta do Rock. A próxima canção, Brasil, tem também imagens loucas, como o «meu cartão de crédito é uma navalha» e antíteses («festa pobre»; «ver TV a cores na taba de um índio»; «grande pátria desimportante»). Além disso, insere-se no espírito da época, quando a Legião Urbana cantava Que País É Esse?, Uns & Outros a Carta aos Missionários, a Plebe Rude o Nunca Fomos Tão Brasileiros, o Lobão o Rock Errou...

 

Chegados a Um Trem para as Estrelas, o álbum torna-se intimista, mas sem nunca perder a consciência social. A lírica de Cazuza mudou muito, se atentarmos nos primeiros trabalhos dele com o Barão Vermelho notamos uma grande evolução. Já Vida Fácil é a música mais descontraída, permitindo-se o Exagerado a fazer uma ode ao «protector das artes práticas» e a dar novo colorido à letra:

 

Tchim-tchim,
A tua corte agradece.
Um brinde,
O nosso astro merece!
Ao seu fã-clube fiel
Dá autógrafo em talão de cheques.

 

Depois vem o brilhante Blues da Piedade, dedicado a todas as pessoas «caretas e covardes», incapazes de arriscarem no amor, que «vivem contando dinheiro» e «não mudam quando é lua cheia», «para quem vê a luz, mas não ilumina suas minicertezas», gente sem grandes ideais. Avançando um pouco, Obrigado (Por Ter se Mandado) junta as habituais antíteses («ter me condenado a tanta liberdade») à acidez «cazuziana»:

 

Pelos dias de cão, muito obrigado,
Pela frase feita!
Por esculhambar meu coração
Antiquado e careta,
Me trair, me dar inspiração
Para eu ganhar dinheiro!

 

O disco continua com Minha Flor, Meu Bebé, a música mais «romântico-carinhosa» que Caju escreveu. Nada da exuberância do Exagerado, apenas uma balada que adoro ouvir num tríptico: O Assassinato da Flor/Um Trem para as Estrelas/Minha Flor, Meu Bebé. Esta última não se alimenta do romantismo esquemático que vemos na maioria das letras de outros artistas, antes prefere cantar um amor mais ligado à protecção de quem gostamos. A fechar o álbum temos Faz Parte do Meu Show, onde vemos novamente a versatilidade de Cazuza, que numa tentativa apenas consegue fazer bossa-nova ao nível dos melhores. Sem saber tocar qualquer instrumento, Cazuza era rock, jazz, blues, bossa-nova... talento puro.

06
Fev16

Rock brasileiro

Francisco Freima

Nunca tive ídolos na música portuguesa, talvez porque o meu género preferido é o rock. Nunca gostei muito de Xutos, os GNR eram bons, mas faltava-lhes qualquer coisa. A minha banda preferida portuguesa foram os Censurados, que comecei a ouvir graças a um namorado da minha irmã. Depois disso, só gostei a sério dos Ornatos Violeta. 

 

Quando comecei a ouvir rock brasileiro, a minha orfandade em relação ao rock cantado em português terminou. Rapidamente, acumularam-se os ídolos: Cazuza, Renato Russo, Júlio Barroso, Herbert Vianna, Arnaldo Antunes e até o idiota/traidor do Lobão. Fiquei fascinado com esse admirável mundo novo. Do Brasil, só tinha ideia da MPB, do Caetano, do Chico, do João Gilberto... isso não é nada a minha onda, acho aborrecido. Já tentei gostar, mas não consigo, só consigo respeitar as pessoas que gostam, por gostar muito delas. Entre ouvir Caetano ou o rock-blues de Cazuza, prefiro o Exagerado! Quando dizem que o João Gilberto e o Chico Buarque são os maiores músicos de sempre do Brasil, eu fico na minha: os maiores são Cazuza e Renato Russo. O problema deles foi não terem tido a campanha mediática que os seus antecessores tiveram. Por exemplo, em Portugal quase ninguém conhece o básico, a discografia da Legião Urbana e do Barão Vermelho. Se conhecessem, mudavam de opinião quanto aos maiores músicos brasileiros. 

 

Talvez comece a escrever algumas colocações sobre os meus álbuns preferidos do rock brasileiro. Para já, deixo-vos em cumplicidade com o Poeta do Rock – uma das diferenças que noto em relação aos músicos portugueses (excepção feita a Variações) é que no Brasil os melhores não eram grandes instrumentistas, pelo contrário: os epítomes dessa geração, Cazuza e Renato Russo, eram poetas, tal como foram Jim Morrisson, Ian Curtis, Morrissey, Viktor Tsoi, Kurt Cobain... não deixa de ser irónico.

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