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Zibaldone

Zibaldone

15
Ago16

Neko nas Posmatra

Francisco Freima

O último álbum dos Ekatarina Velika seria lançado em 1993, durante o período da Guerra Civil Jugoslava. Intitulado Neko nas Posmatra (Alguém nos Vigia), apresentava uma sonoridade bastante mais leve do que o seu antecessor. Esse facto surpreendeu alguns críticos, que não compreenderam a intenção da banda. Com o país envolvido numa guerra fratricida, os EKV quiseram cantar a esperança, devolver um pouco de harmonia à miséria de cada dia.

 

Neste álbum destaco Zajedno (Juntos), Anestezija (Anestesia) e Ponos (Orgulho). A primeira é uma canção alegremente preocupada, em que o autor recorda os amigos e evoca o passado feliz, num contraste com o presente arruinado pela guerra. No final da música, ouve-se a voz de Martin Luther King dizer: «Our generation will have to repent not only for the words and acts of the children of darkness, but also for the fears and apathy of the children of light». Essa apatia está presente em Anestezija, a música seguinte no alinhamento de Neko nas Posmatra. Sendo a canção mais triste do álbum, aborda o abandono da vida e a aceitação do fim iminente. Ficaria como um momento de presciência de Milan em relação ao seu próprio destino. Ponos narra a relação entre uma pessoa que não tolera os erros do parceiro e outra que apenas quer aproveitar os momentos juntos. Canção serena, passa uma mensagem de benevolência para com as falhas dos outros, zombando do orgulho de quem não perdoa e é incapaz de aproveitar o presente devido à sua intolerância.

 

No seguimento deste álbum, os EKV deram dois concertos em Berlim e Praga, antes de Milan Mladenovic partir para o Brasil, onde esteve alguns meses a trabalhar num projecto musical chamado Dah Andela (O sopro do Anjo), que juntou músicos jugoslavos e brasileiros.

10
Ago16

Dum Dum

Francisco Freima

Em 1991, a Jugoslávia era um barril de pólvora pronto a explodir. O XIV Congresso da Liga dos Comunistas, realizado no ano anterior, tinha colocado a nu as dissensões no seio das diferentes delegações nacionais. Tudo começara com a subida de Slobodan Milosevic ao poder, um populista que rapidamente aproveitou os conflitos entre sérvios e albaneses no Kosovo para incentivar o nacionalismo sérvio. À medida que este recrudescia, Milosevic ia colocando os seus «homens de mão» nos governos locais do Kosovo, da Vojvodina e do Montenegro. Esta situação irritou as outras nações, tendo então sido organizado um congresso extraordinário para resolver as disputas. Mas em vez de propor compromissos, Milosevic minou o sistema de votação, ao defender um voto por pessoa. Como a Sérvia tinha na mão os votos dos delegados do Kosovo, da Vojvodina e do Montenegro, os eslovenos recusaram, abandonando pouco depois o congresso. Quando Milosevic tentou retomar os trabalhos, os croatas opuseram-se, afirmando que não continuariam sem os eslovenos. O líder sérvio não levou a ameaça a sério, mas a verdade é que os croatas abandonaram mesmo a reunião quando esta recomeçou. Depois dos croatas, seguir-se-iam as saídas das delegações da Macedónia e da Bósnia-Herzegovina. A guerra começaria no Verão de 1991.

 

Entretanto, na Primavera desse ano, os Ekatarina Velika lançaram Dum Dum (Bang Bang). Considerado o seu álbum mais sombrio, reflecte as angústias de um país preso por um fio. Novamente, os EKV criaram uma obra-prima num contexto extremamente difícil. O mundo onde tinham crescido estava prestes a ruir, mas estes jovens, que só queriam fazer música, não se deixavam intimidar. Escritas inteiramente por Milan Mladenovic, as letras elevariam o pessimismo a uma arte do desespero. Os principais destaques vão para Dum Dum, Siguran e Zabranjujem. A primeira tem uma significativa carga política, pois parece ter como destinatário Milosevic, homem sedento de poder, pronto a disparar nas costas dos seus adversários, desde que isso lhe garantisse a chegada aos centros de decisão. Numa época em que Milosevic era endeusado na Sérvia, os EKV fizeram o mais difícil: ficarem ao lado da minoria na denúncia do ditador. A segunda música do álbum, Siguran (Seguro), é mais serena e subjectiva, trata das dúvidas existenciais das pessoas numa relação, os silêncios expressos nas palavras que se dizem, mas que escondem o seu verdadeiro significado. A última que escolhi, Zabranjujem (Proíbo), é novamente dirigida a Milosevic. Bastante emotivo no seu veemente manifesto, Milan quer proibir que o sonho jugoslavo acabe devido à traição do líder sérvio, apenas interessado na sua sobrevivência política. Pelo contrário, Milan tem já os olhos no futuro, sonha com uma Jugoslávia pós-comunista, aludindo à queda do muro de Berlim na letra, ao cantar que a besta está a morrer. Pese essa morte, o cantor teme que a inveja e a loucura dos dirigentes mergulhe o país no caos, reafirmando porém que esse não pode ser o fim.

 

Infelizmente, seria mesmo assim.

08
Ago16

Samo par Godina za Nas

Francisco Freima

Na senda dos êxitos alcançados com S' Vetrom uz Lice e Ljubav, os Ekatarina Velika lançariam em 1989 o seu quinto álbum, Samo par Godina za Nas (Apenas Alguns Anos para Nós). Gravado na cidade sérvia de Novi Sad, continha alguns dos maiores sucessos da banda. 

 

Uma das virtudes deste álbum é a forma como cresce até à sua música principal (Par Godina za Nas) e depois vai em decrescendo rítmico até à última faixa, Svetiliste (Santuário). Sendo praticamente impossível destacar apenas três músicas, abro uma excepção e contemplo o dobro das entradas. As minhas escolhas são as seis músicas que constituem a primeira parte em crescendo: Iznad Grada, Krug, Srce, Sinhro, Nisam Mislio na To e Par Godina za Nas. Iznad Grada (Acima da Cidade) tem algumas ressonâncias da Budi Sam (a música de abertura do S' Vetrom Uz Lice). Mas onde esta é serena, a outra estava impregnada de uma boémia vertiginosa. Por oposição, em Iznad Grada domina um espírito sonhador, onde a própria cidade sorri à juventude. A faixa seguinte, Krug (Círculo), descreve o ciclo da vida, no qual tudo é divertido e cansativo ao mesmo tempo. O sujeito lírico acaba por quebrar o círculo, talvez numa tentativa de superar o «sim» e o «não», todas as oposições que nos colocam num lado em função do outro. Já Srce (Coração) foi das músicas mais populares dos EKV, conta a história de um amor não-correspondido entre uma rapariga incapaz de arriscar a sua gélida pureza numa relação, lamentando-se o autor por também não ter sido capaz de encontrar a palavra certa que os unisse. Pese o tema, é uma canção alegre, lembrando a dualidade de Radostan Dan. Quanto a Sinhro (Sincronização), é a minha música preferida. Retrata a angústia de alguém disposto a derreter o próprio sol para fundir os mundos que o separam do amor. A ânsia requer proximidade imediata e o belo ritmo da música encarrega-se de nos transmitir essa urgência. Seguidamente, aparece Nisam Mislio na To (Não Pensei Nisso), preenchida pela sensação de estranheza da vida urbana e a descontracção de quem nunca se tinha dado ao trabalho de pensar nisso. Por último, Par Godina za Nas (Alguns Anos para Nós) antevê a descida ao inferno da Jugoslávia. Aborda a loucura inerente à vida quotidiana, nomeadamente a celebração de «histórias sem sentido», numa clara alusão ao regime. Permeada pela fria angústia de quem só tem alguns anos para viver, traduz a banalidade (como em Olovne Godine) e o desencanto de toda uma geração. O potente refrão («Voli me onako kako nikad nisi volela»/«Ama-me como nunca amaste») assume o desespero da situação em que se encontram, o abismo para onde caminham. 

 

Volvidos três anos, as premonições de Par Godina za Nas concretizar-se-iam: a juventude jugoslava vestiria a farda para combater entre si numa sangrenta guerra civil.

03
Ago16

Ljubav

Francisco Freima

Após o sucesso estrondoso de S' Vetrom uz Lice, os Ekatarina Velika voltaram no ano seguinte ao estúdio. Nunca é de mais referir que as condições na Jugoslávia não tinham nada a ver com aquelas de que os músicos ocidentais beneficiavam. Isso reflecte-se na errância dos EKV em termos de estúdios de gravação. O primeiro álbum foi produzido em Ljubljana (Eslovénia), o segundo em Zagreb (Croácia), tal como o terceiro. Já Ljubav (Amor) seria repartido entre Zagreb e Belgrado (Sérvia). Mas se as condições nem sempre eram as melhores, o talento superava todas as dificuldades.

 

Lançado no Verão de 1987, Ljubav correspondeu às expectativas dos fãs. Embora não tivesse tantas músicas populares como S' Vetrom uz Lice, representava uma evolução. As letras, profundas e melancólicas, tornavam ainda mais sombria a aura que se ia apoderando da banda. Deste trabalho, destaco as seguintes canções: 7 Dana (7 Dias), Voda (Água) e Tonemo (Afundamo-nos). A primeira é uma composição triste sobre a ausência de alguém, com o sujeito lírico a querer tanto a proximidade como o afastamento da pessoa por quem sente saudades. Voda fala do esquecimento proporcionado pela água, que leva tudo à sua frente. Por último, Tonemo descreve o sentimento de quem perdeu as suas ilusões, marcando a indiferença o ambiente sonoro, igualmente feito de aceitação. Quem canta sabe que «os dias fugiram», que está a afundar-se numa visão demasiado abstracta da vida, sentindo porém como se nada daquilo fosse com ele.

 

Era um álbum à medida do seu tempo, já que a Jugoslávia começava a mergulhar na crise que iria levar à desintegração do país.

01
Ago16

S' Vetrom uz Lice

Francisco Freima

Para mim, os Ekatarina Velika foram a melhor banda de todos os tempos. Basta olharmos para o contexto em que criaram as suas músicas e percebemos isso: vivendo num regime ditatorial, com o país a resvalar para uma crise que degeneraria na Guerra dos Balcãs, os EKV mantiveram a sua toada de êxitos, inspirando a juventude nesses tempos sombrios. 

 

Para esse sucesso, muito contribuiria o terceiro álbum, S' Vetrom uz Lice (Com o Rosto Contra o Vento). É literalmente impossível destacar três músicas deste trabalho. Todas elas são excelentes, da primeira à última todas retratam os anseios, as conquistas e os receios da juventude jugoslava. Talvez por isso, S' Vetrom uz Lice é considerado por muitos o seu melhor álbum e talvez por isso eu seja um sortudo por ter este vinil em casa.

 

Como gosto de todas as músicas, a avaliação das minhas três preferidas resultará bastante mais subjectiva. Assim, escolho Budi Sam na Ulici (Sozinho na Rua), Kao da je Bilo Nekad (Como Foi em Tempos) e Umorna Pesma (Canção do Cansaço). A primeira é algo irónica, começa por falar na necessidade que o autor tem de um mundo onde diferentes perspectivas possam viver em harmonia, ou de um quarto que albergue cinco mil pessoas com os copos erguidos. A imagem mais bonita é dada logo a seguir: os estilhaços dos copos no brinde da multidão e cada um a seguir na sua própria direcção, com gelo nos corações e indiferença no olhar. O ponto alto chega quando Milan repete o refrão na última parte, exortando os ouvintes a ficarem sozinhos na rua, a desligarem-se das coisas mundanas. Sobre Kao da je Bilo Nekad, posso dizer que tem uma sonoridade oriental e que tem como tema as férias de Verão. O retrato feito nela poderia ser o de qualquer estância balnear, onde a vida decorre sem grandes preocupações, trocando os veraneantes a noite pelo dia e o dia pela noite. A Umorna Pesma é uma música triste, a música triste mais bela que o rock alguma vez produziu. Aborda o cansaço da vida, falando da situação indefinida de alguém que está prestes a desistir de tudo. 

 

Sem dúvida, um dos melhores álbuns de todos os tempos.

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