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Zibaldone

Zibaldone

30
Jun17

Aforismos

Francisco Freima

A função pública está para Portugal como o Arsène Wenger está para o Arsenal.

 

Os Portugueses conseguem tornar qualquer tragédia numa palhaçada.

 

O fala-barato é o espécime mais cultivado na ignorância.

 

Os maus álbuns das grandes bandas costumam ter duas músicas excelentes.

 

Prefiro a profunda tristeza de um amor não-correspondido à felicidade contrafeita da paixão mais rotineira.

09
Jun17

Divagações

Francisco Freima

Tacteio no escuro uma mortalha

Que possa enrolar a minha erva

Com sangue, suor e alguma baba

A conter o sabor de toda a merda.

 

Há quem sussurre vozes de almofada

Enquanto reivindico outra directa

Na rua onde ande a mais beata

A inspirar meus versos por tabela.

 

Ninguém responde para perceber

O que digo sem filtro de se ver

Na achatada tenda do descanso…

 

Puxo o fumo atrás, contemplo o anjo:

A madrugada é um sonho de mulher

Que me faz sair quando ninguém quer.

 

Francisco Freima

02
Jun17

DeZemprego

Francisco Freima

A fila faz um Z de desemprego,

Baixos qualificados, altos quadros,

O Santos, o Sousa, o Silva, o Semedo

Falam dos seus descontos descontados.

 

«Ao fundo à esquerda», diz o segurança.

O casal não percebe e volta atrás.

«Olha que dois…» Para eles avança

Moendo a direcção do tanto faz.

 

Duas mulheres falam em surdina

A desgraça de uma outra que passou:

Sem ajuda sustenta aquela filha,

O marido por uma outra a deixou.

 

«Quantos anos tem?» «Faço vinte e nove.»

«Ah, se fosse novo ia para o estrangeiro!»

Há quem pense um bocado, há quem concorde

Que a saudade acabe em mealheiro.

 

Nem de propósito: o sol arrefece

E o céu faz-se cinzento lá por fora.

Na minha mão, a senha dezassete

Ameaça demorar mais de uma hora.

 

«Senha dez... Senha número dez.» Pois…

Se no íntimo exaspero o passo lento,

Oiço bufar para os meus botões:

«Estou farto, isto é uma perda de tempo!»

 

O segurança dá nas costas deste

Com um dichote acerca do trabalho.

Quem seria aquele desistente?

Olho para o chão: era o 34!

 

Francisco Freima

24
Mar17

...

Francisco Freima

Desgaste, inevitável, como tudo

Que muito dura. Quando damos conta

De já o futuro ser uma afronta

E a vívida paixão um leve múrmur?

 

Quando a ilusão de nós se vê num túmulo,

Salsa esfinge morta, à ilharga da sombra,

Como a mulher de Lot, ao ver Sodoma,

Quando sabemos nós que reina o luto?

 

Ciente ao menos, pois, do desencanto...

Mas quem nos avisasse, nos guiasse

Aos artifícios postos de um quebranto?

 

Quem com palavras de ontem nos moldasse

À medida de um sonho, deste pranto,

O barro em torno vácuo e o Nós girasse?

 

Francisco Freima

 

Escrevi este soneto quando tinha 21 anos. Estando incluso no Sonetos Primeiros, foi um dos raros que conseguiu alcançar o futuro. Efectivamente, poucos são os poemas antigos que permito ao meu convívio. Faltava-me maturidade, tal como um dia faltará ao Francisco de 2017 - daí que em geral deteste a minha obra ao fim de cinco anos  

 

Na altura nem colocava títulos à maior parte das coisas que escrevia. Foi aliás um amigo que me chamou a atenção para a necessidade de lhes dar um nome qualquer. Mas como jovem não pensa, fiquei com esse hábito entranhado durante alguns anos. Os «baptizados» são hoje um suplício, mas vou resolvendo a situação de forma mais ou menos satisfatória. Sobre o soneto propriamente dito, além de ser bastante pretensioso, retrata a efemeridade das relações.

17
Mar17

Rendez Vous

Francisco Freima

Sigo quem me persegue com o olhar

Em forma de xadrez inamovível:

Sou um peão à espera de dançar

Na passadeira verde intransponível.

 

A algum lado havemos de chegar

Quando a música seja mais audível

(Ela está quase para se passar,

Porque anda atrás do impossível).

 

A noite tem estrias de abandono,

Copos de plástico, a baixa do Porto

Aponta-nos o clube mais lotado:

 

Rendez Vous. Numa onda de encontrões

Conseguimos bigodes para os dois

E acabamos mesmo lá em baixo.

 

Francisco Freima

 

Escrito durante uma fugaz passagem pelo Porto, cidade que me surpreendeu da última vez que lá estive, em Novembro. Gosto de escrever sobre locais onde o acaso me levou, é como se pagasse em poesia os bons momentos proporcionados. Foi o caso do Rendez Vous.

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