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Zibaldone

Zibaldone

03
Mai17

Debate Macron/Le Pen

Francisco Freima

Não sei quem vai vencer o debate, mas sei que para a imprensa portuguesa será Emmanuel Macron. Os últimos dias, com a narrativa de que Macron não tem uma estrutura partidária, trouxeram o número habitual: fazer do ex-ministro um peso-pluma artificial para que os opinion makers, cheios de um falso espanto, apontem-no como a surpresa da noite. Na cantilena de todos, Marine Le Pen é uma política profissional prestes a massacrar o seu adversário. Do que eu tenho visto, parece-me mais o contrário: a calma de Le Pen contrasta com a emotividade de Macron. Vivendo nós numa sociedade que preza o espectáculo, basta que ele seja fiel a si mesmo para vencer.

 

Falo por mim, quero que o líder do En Marche! vença hoje e (sobretudo) no domingo. Só não gosto que me tomem por parvo: Macron é o favorito. Se vencer o debate isso não constituirá nenhuma surpresa, mas sim a normalidade. O resto é a hipocrisia dos iluminados.

01
Mai17

A luta do Observador

Francisco Freima

A direita, na sua ânsia de atacar a esquerda, usa qualquer sofisma para legitimar os seus delírios. O último é o apoio do Bloco de Esquerda a Marine Le Pen, porque esta é de esquerda... no Observador, José Manuel Fernandes ensaiou a tese absurda, comparou propostas e desvalorizou as políticas de «imigração e segurança» – é só a principal questão da actualidade europeia. A esquerda é a favor do acolhimento dos refugiados, a direita é maioritariamente contra. Porquê a principal? Porque são pessoas, não são números económicos. Estão ali, nos campos de refugiados da Grécia e da Turquia, à espera de uma solução para o seu problema. Mas JMF tem razão quando afirma que os extremos tocam-se: o Observador e o Luta Popular são disso exemplo.

 

A mirabolante teoria de que alguém apoia outrem por não apoiar ninguém merece ser estudada e abre um precedente engraçado para a direita no futuro. Fica a pergunta: quando existirem eleições no BE, como a que opôs recentemente as moções de Catarina Martins, de Catarina Príncipe e de João Madeira, será pedido ao CDS que apele ao voto numa delas? Outra: caso um ditador decida concorrer sozinho a eleições, os histéricos do apoio também virão logo oferecer os seus préstimos ao candidato? O BE apoiou Jean-Luc Mélenchon. Não passando à segunda volta, e não estando directamente envolvido nestas eleições, acabou aí a história. Ou pelos vistos não, tamanhas têm sido as críticas! Quem os ouvir pensa que o patrocínio do Bloco é fundamental para que Macron vença no domingo. Há quem chegue ao ponto de evocar a segunda volta das presidenciais de 1986, que opuseram Mário Soares a Freitas do Amaral. Esquecem-se de referir que foi uma eleição renhida (não parece ser o caso desta) e que foi em Portugal. 

 

Colar o BE a Marine Le Pen é um exercício de desonestidade intelectual, bastando referir o postal publicado por mim há uma semana, no qual escrevi que votaria em Macron se fosse francês. Não sei se isso é suficiente para apaziguar José Milhazes, que num artigo infeliz define Francisco Louçã como «guru» do partido e faz da posição dele um dogma. Infelizmente para Milhazes, eu também sou Francisco, também milito no Bloco, mas defendo o voto em Macron (ao que sei, ainda não fui expulso). 

 

Não deixa de ser sintomática a misoginia inerente a ambos os Zés quando escrevem sobre o Bloco. Onde Milhazes define Louçã como «guru», dando a entender que uma mulher não consegue pensar pela sua cabeça, Fernandes descreve-o como «endoutrinador-mor». E termina a dizer que este país «tolera todos os dislates às meninas do Bloco», referindo seguidamente os artigos de Jorge Costa e de Nelson Peralta... das duas, uma: ou JMF pensa que Jorge e Nelson são nomes femininos, ou então tem algum preconceito que o leva a ter de citar pelo menos um homem de cada vez que fala nas mulheres do BE. Já a conversa das «meninas do Bloco» é do mais reles que pode haver, pela conotação da palavra «meninas» e pela forma como tem sido utilizada para objectificar e apoucar o papel das mulheres.

 

Mais uma vez, os extremos tocam-se: o «meninas» de José Manuel Fernandes anda de mãos dadas com o «putedo» de Arnaldo Matos. Ou não fossem as duas faces do mesmo vintém.

24
Abr17

Eleições em França

Francisco Freima

foto Le Temps.jpgCom a passagem à segunda volta de Emmanuel Macron e Marine Le Pen, a França dá um eloquente exemplo da crise que assola as fileiras sociais-democratas e democratas-cristãs na Europa. Tanto o Partido Socialista como Les Républicains saem muito mal desta história, sendo os principais derrotados da campanha.

 

Quanto aos vencedores, posso dizer que um não me entusiasma e que a outra só merece sentimentos de repulsa. O discurso do ódio de Marine Le Pen anda a prometer há alguns anos uma tragédia eleitoral – quem não se lembra da segunda volta entre Jacques Chirac e Jean-Marie Le Pen? Recordo que esta dinâmica ultra-conservadora não começou ontem, as suas origens remontam pelo menos às primárias norte-americanas de 1992, quando Pat Buchanan ia conseguindo a nomeação republicana contra o presidente da altura, o cinzento George H. W. Bush.

 

Ainda assim, se fosse um eleitor francês votaria em Emmanuel Macron. Mesmo não me entusiasmando, pior do que a Le Pen não será. Desconfio de pessoas que não se dizem de esquerda nem de direita, costumo ver nisso uma forma politicamente correcta de captar os votos do eleitorado hostil. É o caso de Macron, O Camaleónico. As projecções dão-lhe a vitória na segunda volta, mas eu gosto de ser prudente. Nunca subestimo ninguém, mesmo na realidade portuguesa, partidos como o MRPP ou o PNR merecem sempre a minha atenção, por mais delirantes que sejam os seus programas. Para mim, a política dos nossos tempos é como estar às escuras numa casa estranha: podemos colocar a mão numa maçaneta, mas dificilmente saberemos que porta estamos a abrir. Pelos vistos, os Franceses vão abrir a de Macron. O meu receio é que no fundo da sala, escondida a um canto, Marine Le Pen materialize o fantasma que os eleitores preparam-se para exorcizar a 7 de Maio.

 

O liberalismo macroniano terá grandes desafios pela frente. O primeiro será as eleições para a Assembleia Nacional: não tendo actualmente partido (mas sendo um antigo filiado do Partido Socialista), a presidência de Macron ficará muito marcada pela coabitação com o primeiro-ministro que venha a sair da nova correlação de forças na câmara baixa. O segundo será a sua definição enquanto político. Não basta dizer que não se é de esquerda nem de direita: a partir do momento em que comece a tomar decisões, logo se verá o que é o macronismo. Eu não tenho dúvidas: trata-se de liberalismo económico e pragmatismo político. Por exemplo, Macron é favorável ao acolhimento de refugiados. Não porque sinta particular interesse pelo tema, apenas vê naqueles que são qualificados uma forma de ter mão-de-obra competente e barata. Os outros que se lixem. Ironicamente, este homem que diz ter superado a lógica esquerda-direita é o mesmo que dentro dos seus axiomas vive numa incoerência. Ser liberal na economia até pode representar o progresso, mas ser politicamente pragmático denuncia um conservador. 

 

Sobre a União Europeia, nem vale a pena dizer nada. Depois da desilusão Hollande, o melhor é esperar para ver se continua com o mesmo discurso após a visita a Berlim. Pessoalmente, não acredito na refundação do projecto europeu, nem sequer que o eixo franco-alemão volte a ter por base uma relação entre iguais. Se Macron conseguir o último destes milagres, já será melhor do que o antecessor. De resto, caberá a ele e ao seu interlocutor alemão (espero que seja Martin Schulz) a tarefa de reformularem a União Europeia. 

 

Numa última nota, os meus parabéns a Jean-Luc Mélenchon. No meio de tantas trevas, foi a única luz a brilhar e a erguer bem alto os valores da trindade revolucionária: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

29
Set16

Zola

Francisco Freima

Émile Zola.jpgPassam 114 anos desde a morte de Émile Zola, uma morte estúpida, nunca esclarecida. Se hoje em dia sou de esquerda, bem que lhe devo muita dessa filiação. Foi o clarão das suas palavras no J'Accuse que dissipou em mim todas as dúvidas, que me fez vibrar de indignação a um século de distância. Sim, Léon Blum, não foste só tu a sentir esse entusiasmo juvenil de seres acordado pelo ardina, teu conhecido, a bater na janela do rés-do-chão onde vivias. Sucessivas gerações têm lido o L'Aurore nessa bela manhã de Janeiro. Eles pensavam que tinha acabado! Apenas tu, Zola, tiveste a lucidez, a inquietação, o vislumbre dos remorsos futuros perante uma acção justa não-praticada. 

 

Para quem não conhece, passo a explicar: em 1894, o capitão Alfred Dreyfus, de origem judia, foi preso injustamente sob a acusação de traição à pátria. Levado a conselho de guerra, foi condenado ao desterro na maldita Ilha do Diabo, na Guiana Francesa. Através do empenho de Scheurer-Kestner e da hombridade do tenente-coronel Georges Picquart, o processo seria reaberto. Mais: descobriu-se que Dreyfus afinal não era culpado, que o conde Walsin Esterhazy é que era o autor de tão vil traição. Este ser peçonhento, defendido pelo meio católico e conservador, haveria de escapar à condenação da Justiça francesa, mas não à da História. Dos anti-dreyfusistas, só o tenente-coronel Henry (que forjara as provas contra Dreyfus) teve vergonha bastante para se suicidar. 

 

É estranhamente belo ver a força do J'Accuse, que, segundo Charles Péguy, «virou Paris do avesso». Este texto explosivo pôs «a verdade em marcha», foi o ponto de partida para trazer Dreyfus de novo ao mundo dos vivos, para reabilitar Picquart (haveria de ser ministro da Guerra), para dar esperança à humanidade. No entanto, logo após ser publicado, o seu efeito foi o processo por difamação movido contra Zola, que o levou a sair do país antes de ser condenado a uma pena de prisão. Um escritor tremendamente popular e bem-sucedido, o autor da saga dos Rougon-Macquart podia muito bem ter ficado no conforto do lar em vez de ir à procura de problemas. Mas Zola, além de um notável escritor, era um cidadão exemplar: ao ver a injustiça cometida, ergueu bem alto as bandeiras da liberdade, da justiça, da verdade!

J'Accuse.jpgO Caso Dreyfus, como ficaria conhecido, levou ao primeiro confronto entre intelectuais de esquerda e de direita. A própria palavra «intelectual» fora recuperada pelo escritor Maurice Barrès, um anti-dreyfusista que a utilizava desdenhosamente, para mostrar o pretensiosismo dos dreyfusistas, a suposta arrogância de quem ia contra o povo, contra as tradições, contra o exército, contra a unidade nacional. Mas o mais escandaloso era a ideia defendida por esta direita, de que a verdade e a justiça de nada valiam perante a segurança nacional e a razão de estado! Foi o Caso Dreyfus que trouxe o anti-semitismo para a ribalta, além de ter germinado nesse ambiente a pérfida Action Française de Charles Maurras. 

 

Mas concentremo-nos na luz: Zola, na redacção do L'Aurore, a ler o seu manifesto a Georges Clemenceau e a Ernest Vaughan, perante uma plateia extasiada, consciente de que em breve, no dia seguinte, fariam História. É estranhamente belo que um texto, um amontoado de palavras juntas continue a suscitar tamanha paixão nos corações sedentos de justiça. É igualmente estranho pensar que se alguém não tivesse incriminado Dreyfus, se este não tivesse sido injustamente condenado, se Zola não tivesse tomado a sua defesa em mãos e não escrevesse J'Accuse, se, enfim, nada disso tivesse acontecido, talvez eu não fosse de esquerda. 

 

Haverá maior poder, o de influenciar o futuro? Zola não morreu, vive em todos aqueles que continua a tocar com a sua chama 

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