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Zibaldone

Zibaldone

20
Mai17

Notícias da Gâmbia

Francisco Freima

A história mais bela do mundo continua a desenrolar-se na Gâmbia. Este país, recentemente libertado da ditadura de Yahya Jammeh, continua a desbravar os caminhos para a democracia. 

 

Confesso que ao longo dos últimos meses estabeleci uma relação especial com a Gâmbia. Além de lindo, o país tem vivido dias semelhantes aos da nossa madrugada libertadora, o 25 de Abril. A alegria espalha-se pelas ruas, há uma ânsia de comunicar que perpassa em reportagens realizadas por canais como a GRTS (Gambia Radio & Television Services), onde vemos mulheres a informarem-se dos seus direitos ou trabalhadores a reivindicarem melhores condições laborais. Quem assistir ao telejornal colocado neste postal, verificará que o inglês dos jornalistas pode não ser o melhor ou que as imagens parecem saídas de uma câmera perdida nos anos 90. Todavia, também reparará que a Gâmbia tem melhores jornalistas do que os nossos: a falta de condições técnicas para executarem um trabalho mais elaborado é compensada pela sua capacidade como profissionais. Na GRTS vemos um alinhamento noticioso digno desse nome, iniciando com uma reportagem acerca do acordo celebrado entre a Gâmbia e a China, passando depois para uma notícia relacionada com o julgamento de antigos elementos da polícia secreta de Jammeh. Há ainda reportagens sobre as pescas, a criação de emprego nos sectores do turismo e da agricultura, a consciencialização das mulheres acerca dos seus direitos e as celebrações do 1º de Maio... Na vertente internacional, aborda-se a violência na África do Sul.

 

Um jornalismo limpo, sem futebolização, sem ruído ou procura de assuntos onde eles não existem. Apenas notícias.

11
Mar17

O renascer da Gâmbia

Francisco Freima

foto de Afolabi Sotunde, Agência Reuters.jpgPoucos países no mundo estão neste momento em condições de rivalizar com a Gâmbia. Podem ter os melhores indicadores económicos, as melhores escolas e os melhores hospitais, que ainda assim não têm o que este povo tem tido nos últimos meses: a esperança num futuro melhor. Por lá vive-se um 25 de Abril, uma atmosfera de liberdade após duas décadas sob a ditadura de Yahya Jammeh.

 

O novo presidente, Adama Barrow, tem contribuído para um autêntico despertar nacional. Desde que chegou ao poder, afastou inúmeros cúmplices de Jammeh, torturadores como Yankuba Badjie, antigo chefe das secretas gambianas, ou David Colley, carcereiro-mor nesses tempos sombrios. Por outro lado, as autoridades começam a fazer o que deviam: na semana passada, foi exumado o corpo de Solo Sandeng, rosto da oposição pacífica ao regime. A 14 de Abril do ano passado, este activista organizou uma manifestação na qual se exigiam reformas políticas. Detido pouco depois, seria assassinado pelos facínoras de Jammeh na prisão. A polícia recuperou agora o seu corpo, enterrado perto de uma aldeia costeira (Tanji).

 

Ao mesmo tempo que se lança luz sobre os crimes do passado, no presente assistimos à política no seu estado puro. As mulheres reivindicam uma maior participação e pedem a intervenção do Governo para que nas próximas eleições, marcadas para o dia 6 de Abril, existam critérios de paridade. A futura Assembleia Nacional agradecerá o contributo delas. Igualmente bela é a concórdia reinante entre os partidos, que assinaram um memorando de entendimento no qual se comprometem a não abusarem do poder que lhes for conferido e a não utilizarem os fundos públicos em proveito próprio. Só o tempo dirá se estas promessas serão cumpridas, mas é um gesto bonito que merece ser assinalado.

 

Como sempre, a imprensa dorme enquanto a Gâmbia escreve a história mais maravilhosa dos últimos anos. A ausência de reportagens sobre o que se vai passando é uma vergonha e um menosprezo pelo futuro desta jovem democracia. A Gâmbia merece a atenção do mundo.

28
Jan17

Pateh Sabally

Francisco Freima

Um gambiano de 22 anos morreu ante o gozo abjecto de algumas criaturas. Outras, entre a indiferença e a pouca vontade de molhar a roupa, lançaram três bóias que Pateh Sabally não conseguiu agarrar. O acto não ocorreu em nenhum país conotado com a «selvajaria»: foi numa das casas da civilização ocidental, a Pérola do Adriático, a cidade de Veneza. 

 

Perante a vergonha, um retrato fiel da decadência da humanidade, ventilam-se explicações para o inexplicável: que Sabally queria morrer, que não se devia ter atirado ao mar, que até foi bom, porque já existem demasiados emigrantes a quererem entrar na Europa. Eu costumo ser muito democrata, mas pessoas (?) que dizem parvoíces dessas mereciam ir dar os bons dias à frente de um pelotão de fuzilamento. Além de não fazerem falta, contaminam o ambiente com a porcaria que sai das suas bocas e dos seus actos. Sabally queria morrer? Que quisesse: isso impediria alguém de saltar para a água (nem tinham a desculpa das correntes, pois havia bóias e uma data de gente por perto!) para tentar resolver a situação? 

 

Ainda piores são os autores do vídeo que circula pela internet. Um jovem está a morrer e eles ficam no gozo, chamam-lhe burro, fazem insultos racistas. O mínimo é que se descubra quem realizou tamanha abjecção, sentando-os no banco dos réus – negar auxílio a quem dele necessita é crime em todos os países civilizados, penso que a Itália ainda se conta nesse lote. 

 

A Gâmbia vive um momento tumultuoso da sua história. Quem sabe se Sabally não foi um dos que fugiram da ditadura de Yahya Jammeh? A tensão de um país em transição para a democracia merece a nossa atenção. Cabe a nós ajudar estas pessoas que vêem na UE um santuário de paz e prosperidade. Porque, mesmo em crise, o que para nós é pouco para eles é muito. No país de São Francisco de Assis, custa a crer que a partilha e o amor ao próximo tenham virado monumento à hipocrisia.

21
Jan17

Às portas de Banjul

Francisco Freima

Soldados senegaleses na Gâmbia.jpgSexta-Feira, 20 de Janeiro: Enquanto escrevo, um exército de 7 000 homens retomou a sua marcha em direcção a Banjul. Organizada pelos países do ECOWAS (Economic Community of West African States), esta força militar tem por missão remover Yahya Jammeh do poder, o ditador que depois de reconhecer a derrota procura perpetuar-se na presidência.

 

A Gâmbia vive por estes dias num tropel de emoções. À alegria pela tomada de posse de Adama Barrow (a cerimónia realizou-se na embaixada da Gâmbia em Dacar, no Senegal) sucede-se a angústia de um futuro incerto. Neste momento, ninguém sabe o que vai na cabeça de Jammeh, após ter perdido em toda a linha. As tropas gambianas na fronteira com o Senegal não opuseram resistência à entrada dos soldados estrangeiros, ficando a ideia de que o ainda Presidente se encontra isolado. O próprio vice-presidente, Isatou Njie Saidy, demitiu-se na sequência destes acontecimentos. O ciclo de Jammeh terminou, e só ele ainda não deu conta disso mesmo: ao mar de gente que nas ruas de Banjul festejava a tomada de posse de Barrow deve ter correspondido o silêncio sepulcral dos gabinetes ministeriais vazios. As deserções têm sido tantas que o mais certo é que o tirano não encontre ninguém disponível para integrar a farsa de um governo remodelado. Do que é que ele está à espera? Da tomada de posse de Trump? De reunir os apoios necessários para iniciar uma guerra civil? De garantir que o seu património fica a salvo, ou que uma resposta ao seu pedido de asilo chegue?

AFP Photo Adama Barrow sworn in.jpgSábado, 21 de Janeiro: Yahya Jammeh vai deixar o poder! A incursão militar foi preponderante para esta decisão, uma vez que as tropas do ECOWAS não encontraram qualquer oposição. Pelo contrário, o responsável pela Defesa no governo de Jammeh demitiu-se e disse que receberia o exército estrangeiro com uma chávena de chá. Vendo o cerco a apertar-se, o ditador decidiu finalmente sair do poder. Resta agora saber qual o país que o irá acolher no exílio. Por falar em exílio, a teimosia de Jammeh foi responsável pela fuga de 45 000 gambianos para o Senegal, e de outros 800 para a Guiné-Bissau. Espera-se que o clima de desanuviamento permita o regresso destes cidadãos ao seu país.

10
Dez16

Discurso de Adama Barrow

Francisco Freima

Adama Barrow.jpgComo se mantém o boicote às notícias vindas da Gâmbia, decidi traduzir o primeiro discurso de Adama Barrow, o futuro Presidente daquele país. Não sou tradutor e este trabalho foi realizado hoje, pelo que pode conter alguns erros. O texto original encontra-se aqui. 

 

Caros Cidadãos e Amigos da Gâmbia,

 

Quero aproveitar esta oportunidade para dar os parabéns à Comissão Eleitoral Independente da Gâmbia em particular, e ao eleitorado em geral, por ter proporcionado as condições para a existência de eleições livres, justas e credíveis. Imbuído do mesmo espírito, quero felicitar os adversários pela aceitação dos resultados das eleições como o veredicto incontestável do eleitorado. O povo da Gâmbia falou. Ele mostrou que tem o poder de decidir o seu destino.

 

Pela primeira vez na história da Gâmbia, a mudança surge de forma pacífica, através do voto em urna que expressa a vontade popular. Todos nós fizemos história. Não existem vencedores ou derrotados destas eleições. Trazemos a mudança para construir uma sociedade inclusiva.

 

Agora, os Gambianos e a Gâmbia podem erguer os seus rostos e contarem-se entre as nações mais democráticas do mundo. A mensagem de felicitações do Presidente Jammeh, o Presidente cessante, e a sua promessa de colaborar comigo quando iniciar funções, para garantir uma transferência pacífica do poder, representa outro marco na história da transferência democrática do poder em África. Acordámos ainda em criar grupos de trabalho paralelos, para conjuntamente estudarmos e implementarmos os termos em que se realizará a transição.

 

O meu grupo de trabalho, enquanto futuro Presidente, já foi constituído. Integra Gambianos cuja competência e integridade são reconhecidas, estando agora encarregados de elaborarem um calendário para a transição. Eles já apresentaram a agenda de transição da futura administração, que foi aprovada por mim e pelos demais membros da Coligação como um programa de actividades realista, exequível e balizado no tempo, de forma a garantir uma transferência pacífica do poder. Estou certo de que muitos de vós, aqui e no estrangeiro, procuram uma explicação para não ter assumido funções no dia 2 de Dezembro de 2016.

 

A resposta é simples: fui declarado vencedor das Eleições Presidenciais tendo como fundamento o espírito da Constituição de 1997 e as leis eleitorais da Gâmbia. O incumbente respeitou os resultados e prometeu colaborar comigo, para que exista uma transferência pacífica do poder baseada na Constituição da República.

 

A subsecção 2 da secção 63 da Constituição define claramente que «A pessoa declarada eleita como Presidente deve prestar os juramentos previstos e assumir o cargo no dia em que cessa o mandato do Presidente em funções.»

 

Isto é o que está vertido na lei. Após reuniões alargadas com membros da Coligação e especialistas na área do Direito, concluiu-se que eu deveria assumir o cargo no dia em que o mandato do Presidente Jammeh termina. Assim, a minha tomada de posse como Presidente da República deve acontecer na terceira semana do mês de Janeiro do próximo ano.

 

A minha equipa está neste momento a organizar a cerimónia de investidura, comunicando oportunamente todos os desenvolvimentos da transição política, a bem do escrutínio público e da transparência.

 

Estou ciente de que alguns de vós pensam que eu devia fazer declarações para manter o público informado. Quero aplacar os vossos receios e garantir que estão a ser feitos progressos para facilitar a transferência do poder. A população deve compreender que fazer o que nunca antes foi feito requer um planeamento rigoroso e uma cuidadosa avaliação dos passos antes de os tomar. Esta é precisamente a forma de actuação que a nova administração pretende adoptar. Consultaremos outros parceiros e construiremos pontes antes de divulgar comunicados.

 

É importante realçar que este Governo pretende proporcionar à Gâmbia um novo começo. Respeitará o Estado de Direito, nomeadamente o primado da Constituição antes, durante e depois de assumir a chefia do Estado. A democracia será alargada e consolidada; o respeito pelos direitos humanos será a pedra angular do sistema judiciário do país. A boa gestão será melhorada pelas reformas jurídicas e institucionais, ao abrigo da Constituição, que deverão salvaguardar a prestação dos serviços necessários à população.

 

Quero registar o meu compromisso com as promessas eleitorais: não presidirei a um país onde as detenções acontecem sem passarem pelos trâmites devidos e os defensores da resistência não-violenta acabam na prisão. Nenhuma intervenção pública ou desobediência civil não-violenta levará ao encarceramento de cidadãos Gambianos durante o mandato da Coligação. Todas as leis que criminalizam a liberdade de expressão ou a resistência não-violenta serão revogadas.

 

Neste sentido, e como gesto de boa-fé, pedi ao Presidente cessante e ao Procurador-Geral da República para, no exercício dos seus poderes, assegurarem a libertação dos presos ou detidos que se enquadram nestas categorias.

 

Não pretendo assumir o cargo e iniciar uma operação para minorar as violações dos direitos humanos, podendo essa situação ser acautelada pelo Presidente cessante.

 

Pedi também à minha equipa para organizar um encontro com as chefias dos Serviços de Segurança, o Presidente da Comissão Eleitoral Independente, o Presidente da Assembleia Nacional, o Juiz-Presidente do Supremo Tribunal e o Conselho Nacional de Justiça, tendo em vista a melhoria da cooperação institucional e a garantia de uma transferência de poder sem sobressaltos.

 

As chefias das polícias pediram-me para juntar a minha voz à promoção das comemorações pacíficas dos resultados eleitorais. Todos nós desejamos um ambiente pós-eleitoral liberto de perseguições e de violência. A Gâmbia é uma só nação e um só povo. Estamos acostumados a respeitar as diferenças e devemos manter o espírito do pluralismo democrático. Cada um tem o direito de apoiar o partido da sua escolha sem ser ser sujeito a nenhuma espécie de perseguição ou intimidação por exercer os seus direitos.

 

Todos os Gambianos são livres de usarem as cores dos seus partidos e não devem ser perseguidos devido às suas escolhas políticas. Os líderes vão e vêm ao sabor da escolha popular, mas a cidadania do povo soberano da Gâmbia mantém-se inviolável. Unamo-nos como pessoas diferentes com um mesmo objectivo, o de garantir paz para todos, liberdade e prosperidade, reconhecendo a nossa identidade comum. Quero que todos os Gambianos aceitem que agora pertencemos ao grupo dos países que respeitam os direitos humanos, pelo que ninguém deverá discriminar o próximo.

 

Não poderia concluir sem vos informar de que em menos de uma semana após a divulgação dos resultados, recebi mensagens de felicitações de países, organizações internacionais e doadores que expressaram a sua vontade de apoiar a Gâmbia como nunca antes, abrindo novos horizontes para o progresso e a prosperidade do país e do povo. Assim, peço a cada um de vós para continuarem a desenvolver uma cultura democrática onde a justiça, o primado da lei, a boa gestão e o respeito pelos direitos humanos prevaleçam sempre. Desta maneira, o povo da Gâmbia desfrutará sempre de liberdade, paz e prosperidade.

 

Como Presidente eleito, quero assegurar que assumirei o cargo para servir todos os Gambianos, independentemente das suas diferenças étnicas, religiosas, de género ou outras. Não excederei os limites previstos pela Constituição e demais leis do país no exercício do Poder Executivo.

 

Respeitarei a independência do sistema judicial e as funções de supervisão da Assembleia Nacional. A justiça e a competência colocada ao serviço da pátria serão o chamamento a que todos os Funcionários Públicos deverão acudir. Peço-vos que ajudem esta administração a tornar a Gâmbia num país que pertence aos cidadãos, num país que garanta a todos liberdade e prosperidade.

 

Juramos a nossa firme aliança para com a Gâmbia e o seu povo. Viva a Gâmbia! Viva o povo! Em frente, sempre! Para trás, nunca!

 

Adama Barrow, 9 de Dezembro de 2016

 

Actualização: Depois deste magnífico discurso, o assassino/corrupto/idiota Yahya Jammeh voltou atrás e não aceita os resultados eleitorais. Pena que a comunicação social só se lembre da Gâmbia quando é para dar notícias destas... se Jammeh levar a sua avante, a culpa também é da comunidade internacional, aparentemente indiferente em relação ao destino da Gâmbia. A demissão do Ocidente é um convite à perpetuação de Jammeh no poder. Acordem!

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