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Zibaldone

Zibaldone

01
Set16

O golpe

Francisco Freima

Se alguém tinha dúvidas sobre os efeitos perenes de um povo colonizador numa civilização, elas dissiparam-se ontem. O Brasil, por muitos considerado uma espécie de super-Portugal, revela em excesso os defeitos da antiga metrópole: desigualdade, corrupção, ignorância e racismo. 

 

O sinistro cortejo de Palpatines que votaram a favor do impeachment é um sério aviso à democracia brasileira. A presidenta Dilma saiu, acusada de um crime de responsabilidade inexistente, para dar lugar às quadrilhas do PMDB e do PSDB, que, sem o freio petista, aprofundarão as desigualdades entre ricos e pobres, a manipulação da rede Globo e o racismo contra as populações negra e índia. Com a saída de Dilma, o Brasil recuará em matéria de políticas sociais, ficando o Estado como presa dos interesses oligárquicos. 

 

Estou curioso para conhecer os argumentos da direita portuguesa em relação à sua congénere brasileira. Como é que vêem a situação actual, onde um «presidente» corrupto toma posse devido à acção de inúmeros corruptos contra uma mulher que não cometeu nenhum crime? Consideram normal o governo legítimo ser afastado por meia dúzia de ressabiados, cujo móbil foi a Lava Jato? A direita, que costumava bater no peito e dizer-se defensora da liberdade, continua a apoiar os regimes mais «exóticos», faróis do capitalismo real: Angola, Guiné-Conacri, Turquia, Rússia, Filipinas, Arábia Saudita...

 

Também fico à espera da cobertura sensacionalista da comunicação social. É que não basta ir à Grécia gozar com um governo que lida diariamente com os problemas deixados pela direita, tal como não basta ir à Venezuela mostrar as filas de racionamento sem referir os especuladores – já agora, para quando uma reportagem sobre o assassinato de Hugo Chávez pela CIA? Ah, pois é, isso não interessa...

 

Fica o vídeo da intervenção de Jean Wyllys, deputado do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), sobre a situação política brasileira, no Fórum Socialismo.

18
Abr16

Crime de irresponsabilidade

Francisco Freima

Tiririca foto de Ueslei Marcelino Agência ReutersCom Eduardo Cunha no papel de Palpatine, a Câmara dos Deputados vota neste momento pelo impeachment de Dilma Rousseff. Numa total perversão da democracia, o corrupto Cunha preside à sessão, tendo por objectivo colocar outro corrupto (Michel Temer) na presidência e outro corrupto (Aécio Neves) na sombra. Para levar a água à sua latrina, Eduardo Cunha conta com o apoio de toda a espécie de idiotas úteis: desde o cowboy carioca ao palhaço Tiririca, passando pelos pastores evangélicos, o golpe segue a velocidade cruzeiro, mas sem plano real.

 

Dá-me vómitos ver o escroto Bolsonaro saudar o canalha que torturou a Dilma, mas dá-me esperança ver Glauber Braga evocar o nome de Carlos Marighella no meio daqueles fascistas. De resto, o PSOL, o «partido-irmão» do Bloco no Brasil, é o único que sai engrandecido desta história, mantendo-se fiel quando outros roem a corda, apoiando um governo legítimo sem colocar as mãos no fogo quanto a possíveis casos de corrupção. Como disse Chico Alencar, existem várias boas razões para o impeachment que não aquela que a direita vocifera. As «pedaladas» fiscais, que Dilma utilizou para tapar o buraco orçamental através do recurso aos capitais da banca, não constituem crime. Constituem, isso sim, a prova de que o governo tem genuínas preocupações sociais, já que esse dinheiro foi para despesas relacionadas com os programas «Bolsa Família» e o «Minha Casa, Minha Vida».

 

Aos idiotas do burgo, que comparam este golpe com a «geringonça», só posso dizer que cá existiram eleições, e das eleições resultou o entendimento entre os partidos que suportam a actual maioria parlamentar. No Brasil, três corruptos (Temer, Cunha e Aécio) estão a instrumentalizar os analfabetos políticos para escaparem à Lava Jato. Utilizando o ódio dos jumentos contra Lula, pretendem atingir uma presidente sobre a qual não recai a mínima suspeita. Os cartazes «Tchau Querida» ilustram o seu sexismo. Eles têm achincalhado Dilma Rousseff, porque não suportam ser liderados por uma mulher. 

 

Olho para a televisão: «Pelo meu pai, pela minha mulher, pelos meus filhos... Pelos dez milhões de desempregados... Pela recuperação da economia... Por Deus». Tudo serve para justificar o injustificável, tudo menos os motivos alucinados que presidiram à convocação da farsa. Crime de responsabilidade? Só se for social.

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