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Zibaldone

Zibaldone

29
Mai17

Desemprego à portuguesa

Francisco Freima

Em Portugal, os partidos mais depressa copiam os vícios uns dos outros do que as boas ideias. Vem isto a propósito dos números do desemprego, um evidente truque de «descontabilização» por parte deste Governo, que assimilou bem a lição pafiosa. 

 

Segundo o Governo, o desemprego está a diminuir. Segundo o que eu vejo, ele está ao nível dos anos anteriores. Claro, nesta guerra vence quem tem os números do seu lado, mas existem aspectos sobre os quais gostamos de fazer sombra para acreditar nessa boa nova: o desemprego baixou! Mas como? Eu explico: em 2015, a PàF orquestrou uma gigantesca campanha de desinformação: subitamente, o país crescia (à conta das recessões passadas), as exportações aumentavam (já cresciam desde o tempo de José Sócrates), a banca estava sólida (Banif para debaixo do tapete) e o desemprego diminuía. Neste último caso, os governantes da altura esqueceram de forma propositada os números da emigração e a quantidade de desempregados que saíram das estatísticas por frequentarem estágios do IEFP. É esta farsa que vemos novamente. Com uma agravante: a máquina que a PàF oleou em 2015 não foi desmantelada. Pelo contrário, em 2016 e 2017 acentuou-se a táctica de enviar desempregados para estágios de forma a escamotear a realidade.

 

Os números falam em cerca de 520 000 desempregados. Não me surpreenderia que fosse o dobro, ou até o dobro do dobro. Para mim, não é sério calcular esta taxa sem contemplar os estagiários, os trabalhadores com um único emprego em part-time ou aqueles que, tendo horário completo, não contem com um salário-base. Juntando estas situações, teremos certamente os tais dois milhões. Conheço poucas pessoas da minha idade que recebam ao final do mês um salário. E daquelas que conheço, a esmagadora maioria emigrou. Por outro lado, conheço inúmeras pessoas a frequentarem estágios, a prosseguirem os estudos universitários para não ficarem paradas, a trabalharem em part-time ou em horário completo como comissionistas a 100%. Também conheço quem acumule o full-time com um vencimento-base de uns 250/300 €, ficando o resto dependente de comissões, situação que considero normal (só que não) para quem está a entrar no mercado de trabalho, mas que se torna ridícula para quem, quase a entrar nos 30, necessita de outro tipo de condições financeiras. Ou então, não, mas depois não culpem essas pessoas pela baixa natalidade ou por tardarem em sair de casa dos pais. Critiquem-nas por quererem viver no país onde nasceram quando a lógica diz que deviam ir embora.

 

Qual é o louco que vai sair de casa sem arranjar um emprego que lhe permita fazer face às despesas mais básicas (renda, água, luz, gás e comida)? Quais são os irresponsáveis que, ganhando 300 €, decidem ter filhos? E quantos postos de trabalho existem verdadeiramente em Portugal? E quem costuma ficar com eles? Mais do que nunca, viver em Portugal é um luxo só ao alcance dos jovens cujos familiares conhecem A, que é amigo de B, que andou ao colo com C. Os outros são carne para canhão.

10
Mai17

Novas estações

Francisco Freima

O Zibaldone teve acesso em primeira mão às 20 novas estações que a Dr.ª Assunção Cristas pretende para expandir a rede do metropolitano de Lisboa, futura Cristamburgo. São elas: 

 

  1. Estação Paulo Portas (Cascais)
  2. Estação Assunção Cristas (Bobadela; nela constará a frase: «Tenho o vento de Lisboa colado à minha pele e a água do Tejo colada à minha alma!»)
  3. Estação Adelino Amaro da Costa (Caldas)
  4. Estação Baldas (estação itinerante, mas que servirá sobretudo o Nuno Melo quando estiver por cá)
  5. Estação da Agricultura (em homenagem à passagem da Assunção Cristas pelo Ministério da Agricultura; ficará no Instituto Superior de Agronomia)
  6. Estação Adriano Moreira (ISCSP)
  7. Estação Cerejeira (Sé; Patriarcado de Lisboa)
  8. Estação Arquitecto Saraiva (Elevador da FNAC)
  9. Estação do Sol (Rua do Açúcar; uma espécie de plataforma 9 3/4 que nos teletransportará para o Pabe ou para o Solar dos Presuntos)
  10. Estação Praia do CDS (é Centro Desportivo de Surf, mas a Cristas não sabe; servirá como colónia de férias para betos)
  11. Estação Miguel Sousa Tavares (Jardim do Tabaco)
  12. Estação Lacoste (funcionará apenas durante o Estoril Open)
  13. Estação António Lobo Xavier (Carnaxide)
  14. Estação Pedro Mota Soares (ligará a qualquer concessionário da Vespa)
  15. Estação Nuno Magalhães (CONFAP)
  16. Estação Hélder Amaral (Embaixada de Angola)
  17. Estação do Petróleo (Beato)
  18. Estação Teggy (em homenagem a todas as betas; ficará na rua de Buenos Aires)
  19. Estação Pedro Guerra (Damaia; na estação será pintada a frase Ó SOUSA MARTINS)
  20. Estação Freitas do Amaral (Boca do Inferno)
01
Mai17

A luta do Observador

Francisco Freima

A direita, na sua ânsia de atacar a esquerda, usa qualquer sofisma para legitimar os seus delírios. O último é o apoio do Bloco de Esquerda a Marine Le Pen, porque esta é de esquerda... no Observador, José Manuel Fernandes ensaiou a tese absurda, comparou propostas e desvalorizou as políticas de «imigração e segurança» – é só a principal questão da actualidade europeia. A esquerda é a favor do acolhimento dos refugiados, a direita é maioritariamente contra. Porquê a principal? Porque são pessoas, não são números económicos. Estão ali, nos campos de refugiados da Grécia e da Turquia, à espera de uma solução para o seu problema. Mas JMF tem razão quando afirma que os extremos tocam-se: o Observador e o Luta Popular são disso exemplo.

 

A mirabolante teoria de que alguém apoia outrem por não apoiar ninguém merece ser estudada e abre um precedente engraçado para a direita no futuro. Fica a pergunta: quando existirem eleições no BE, como a que opôs recentemente as moções de Catarina Martins, de Catarina Príncipe e de João Madeira, será pedido ao CDS que apele ao voto numa delas? Outra: caso um ditador decida concorrer sozinho a eleições, os histéricos do apoio também virão logo oferecer os seus préstimos ao candidato? O BE apoiou Jean-Luc Mélenchon. Não passando à segunda volta, e não estando directamente envolvido nestas eleições, acabou aí a história. Ou pelos vistos não, tamanhas têm sido as críticas! Quem os ouvir pensa que o patrocínio do Bloco é fundamental para que Macron vença no domingo. Há quem chegue ao ponto de evocar a segunda volta das presidenciais de 1986, que opuseram Mário Soares a Freitas do Amaral. Esquecem-se de referir que foi uma eleição renhida (não parece ser o caso desta) e que foi em Portugal. 

 

Colar o BE a Marine Le Pen é um exercício de desonestidade intelectual, bastando referir o postal publicado por mim há uma semana, no qual escrevi que votaria em Macron se fosse francês. Não sei se isso é suficiente para apaziguar José Milhazes, que num artigo infeliz define Francisco Louçã como «guru» do partido e faz da posição dele um dogma. Infelizmente para Milhazes, eu também sou Francisco, também milito no Bloco, mas defendo o voto em Macron (ao que sei, ainda não fui expulso). 

 

Não deixa de ser sintomática a misoginia inerente a ambos os Zés quando escrevem sobre o Bloco. Onde Milhazes define Louçã como «guru», dando a entender que uma mulher não consegue pensar pela sua cabeça, Fernandes descreve-o como «endoutrinador-mor». E termina a dizer que este país «tolera todos os dislates às meninas do Bloco», referindo seguidamente os artigos de Jorge Costa e de Nelson Peralta... das duas, uma: ou JMF pensa que Jorge e Nelson são nomes femininos, ou então tem algum preconceito que o leva a ter de citar pelo menos um homem de cada vez que fala nas mulheres do BE. Já a conversa das «meninas do Bloco» é do mais reles que pode haver, pela conotação da palavra «meninas» e pela forma como tem sido utilizada para objectificar e apoucar o papel das mulheres.

 

Mais uma vez, os extremos tocam-se: o «meninas» de José Manuel Fernandes anda de mãos dadas com o «putedo» de Arnaldo Matos. Ou não fossem as duas faces do mesmo vintém.

21
Abr17

A mentira caiu de Maduro

Francisco Freima

O voto de condenação do Bloco de Esquerda aos recentes acontecimentos na Venezuela é a prova provada de que o movimento nunca alinhou com os delírios de Nicolás Maduro. Para infelicidade da direita, acabou o mito urbano do apoio do BE ao regime venezuelano. A partir de agora, basta remeter para a posição tomada hoje na Assembleia da República. Ou para a de Roberto Almada na Assembleia Legislativa da Madeira. Ou para o artigo de Mariana Mortágua publicado no ano passado... estranhos apoiantes que passam o tempo a condenar aquilo que os outros querem que eles apoiem.

 

Entretanto, nunca é de mais recordar que PCP, PS, PSD e CDS apoiam a ditadura de José Eduardo dos Santos. E que a direita já não tem vergonha de o demonstrar. No caso do CDS, um enviado deles ao congresso do MPLA saiu de lá a dizer que ambos os partidos têm «muitos mais pontos em comum.» 

 

Mas não, estes partidos são o baluarte da democracia em Portugal, nunca fecham os olhos às negociatas angolanas e passam boa parte do tempo a incitar jornalistas para que publiquem tudo o que coloque em xeque as autoridades daquele país. E, como é óbvio, jamais pedem desculpas a criminosos.

17
Abr17

A mulher nova

Francisco Freima

Zita Seabra.jpgSe eu fosse militante do PCP, punha os meus camaradas a verem a participação de Zita Seabra no último Governo Sombra. Não porque a senhora tenha sido particularmente brilhante, mas pelo chorrilho de mentiras e a pazada de lama que lançou sobre a memória de Álvaro Cunhal. Falo por mim, disparates como os proferidos naquele programa motivam-me a dar ainda mais o litro pelas "causas perdidas".

 

Segundo a doutora Zita, o comunismo morreu. É uma morte um tanto estranha quando vemos depois a mesma pessoa dizer que só em Portugal ainda existe um partido comunista activo. Morreu, mas em Portugal está vivo. Quererá isso dizer que o nosso país morreu também? Quanto à morte em todo o lado, se calhar Cuba, China, Angola e Bielorrússia ficam noutros planetas...

 

Mas a melhor parte foi aquela em que Zita Seabra deu a entender que Álvaro Cunhal já não seria comunista quando morreu. Procurei alguma declaração do antigo secretário-geral do PCP nesse sentido, mas não encontrei. Assim, o tipo de pessoa que é a Zita ficou ainda mais definido para mim: além de oportunista, é mentirosa. Só alguém sem escrúpulos pode compor tamanho cenário para minimizar as suas falhas de carácter. Infelizmente para ela, Álvaro Cunhal foi fiel aos seus princípios até ao fim. Aliás, quando falou que ele foi para casa e deixou o partido entregue a Carlos Carvalhas, porque já não acreditava naquilo e queria dedicar-se à divulgação das suas obras, a doutora esqueceu-se de mencionar o nome das mesmas: Cinco Dias, Cinco Noites e Até Amanhã, Camaradas, dois livros essenciais do neo-realismo português. 

 

Ironicamente, no Até Amanhã Camaradas aparece um pertinente retrato do tipo representado por Zita Seabra. É já no final, quando Paulo, a braços com a reorganização do seu sector após a greve geral e a prisão de inúmeros camaradas, decide visitar dois antigos companheiros:

 

Paulo lembrou-se de dois antigos companheiros de prisão, ambos então estudantes, que sabia estarem agora vivendo com desafogo. Resolveu procurá-los em L... Segundo lhe haviam dito, um recebera uns milhares de contos por morte do avô. Com um pouco de boa vontade, sem o mínimo de transtorno, poderia resolver as dificuldades. Paulo sabia-o afastado e desinteressado de qualquer actividade política, mas, fiando-se no seu conhecimento da prisão e na lembrança que tinha do espírito simples e solidário do antigo companheiro, estava convencido de ser bem sucedido na diligência.

 

Encontrou-o em casa. Foi recebido num escritório escuro e solene, acusando, na sua luxuosa velharia, o viver confortável de algumas gerações. Com dificuldade reconheceu o antigo companheiro. Em vez do rapazinho magro e desalinhado, de fato de ganga e tairocas, que conhecera na prisão, tinha agora diante de si um homem cheio de expressão e pose impertinentes, de traje vistoso e caro.

 

Também o outro teve dificuldade em reconhecê-lo.

 

– Ah! – admirou-se, quando Paulo o tornou lembrado, e, sem o mandar sentar, ficou-se a olhá-lo com impaciência.

 

Tal modo mostrava tão arrogantemente o desagrado pela visita, afirmava tão claramente não haver já nem poder haver entre os dois a velha amizade, terem-se as duas vidas afastado e nada de comum haver entre elas, que Paulo não colocou o que ali o levara e, para justificar a visita, limitou-se a pedir uma informação que nada lhe interessava acerca dum indivíduo que com eles estivera preso. O visitado disse nada saber e Paulo deixou-o.

 

Saiu daquela casa com um tão doloroso sentimento de desilusão que esteve para não procurar o outro. "Na maior parte – pensava Paulo – os filhos da burguesia são assim. Enquanto jovens, enquanto não tomam directamente posse dos instrumentos de exploração, são por vezes levados a atitudes combativas por ideais de justiça social. Depois, com facilidade os problemas de consciência cedem passo ao interesse material e aos privilégios de classe."

Álvaro Cunhal, Até Amanhã, Camaradas, p. 317; Edições Avante

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