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Zibaldone

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27
Set16

Taxínicos

Francisco Freima

Taxistas contra taxistas.jpgQuando Nietzsche escreveu a propósito do Ubermensch, dificilmente estaria a pensar nas futuras querelas entre taxistas e motoristas privados. A verdade é que o «taxínico», uma espécie de neanderthal, está pronto a ser substituído pelo «Homo Uber». Tal como o neanderthal, o «taxínico» é conhecido pelo seu espírito guerreiro e pelo facto de não comunicar com os da sua tribo a nível mundial. Já o «Homo Uber», nascido na era digital, vive no mundo globalizado, gosta de comunicar e não é muito dado a atitudes bélicas. Prefere cooperar.

 

No clã lusitano, o chefe Florêncio Almeida distingue-se pelas atitudes bárbaras. Ele promete porrada, ele apela à justiça popular e, quando não está entretido com a sua grande moca, ele monta acampamentos. O «rei da bandeirada» é ainda conhecido pela forma como construiu o seu império: ao que parece, o líder da ANTRAL tem utilizado a sua posição privilegiada para negociatas suspeitas. Os conflitos de interesses não incomodam este espertalhão, nem o facto de andar a arrebanhar táxis da província para os colocar ao serviço na capital. Um chefe mafioso, Florêncio Almeida já deve alguns anos à prisão, mas, como estamos em Portugal, no pasa nada. Agora, quiçá inspirado em Pablo Escobar, declarou guerra ao Estado, acredita que as leis só são legais quando lhe interessam. Obviamente, na cabeça dele a legalização da Uber e da Cabify é ilegal.

 

Mas Florêncio, o Grunho, precisa de ter cuidado: à espreita da sucessão está José Carlos Pereira, o Bufo. Este ídolo dos taxistas aeroportuários confirma as suspeitas de Antero de Quental acerca dos povos ibéricos: «há em todos nós, por mais modernos que queiramos ser, há lá oculto, dissimulado, mas não inteiramente morto, um beato, um fanático ou um jesuíta!». À falta do Santo Ofício, Zé Carlos utiliza o agente policial para denunciar os cristãos-novos condutores novos. Logo é aberto o auto-de-fé auto de notícia para remissão dos pecados de quem acredita noutro Deus providencia outro serviço. Este Torquemada taxista já foi alvo de alguns processos devido ao excesso de zelo, o que é perfeitamente desculpável quando nos atemos às suas origens rococó. Da luta entre Florêncio, o Grunho, e Zé Carlos, o Bufo, nada de bom se espera. Ou melhor, se se destruírem mutuamente, o país agradece. 

 

Imune a estes vilões, a Uber vai fazendo o seu caminho. E mesmo que os serviços partilhem o destino, penso que todos (à excepção dos antropólogos) preferimos ter como condutor uma pessoa deste século do que um Roderico ou um «Martelo dos Hereges».

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