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Zibaldone

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07
Abr16

Teixeira de Pascoaes

Francisco Freima

Teixeira de Pascoaes.jpg«Os zéfiros de Abril passam, como tufões, pelo meu ser; o luar esmaga-me como a tampa dum sepulcro; a primeira sombra outonal invade-me a alma, como se fora a noite sempiterna; o silêncio é de bronze nos meus ouvidos; e uma canção perdida no crepúsculo afoga-me os olhos de lágrimas...»

 

Estas palavras podiam ter sido escritas por Novalis, mas pertencem a Teixeira de Pascoaes (O Bailado, Prólogo XXXVI), um dos melhores poetas do século XX. O mestre «prestidigitador», Mário Cesariny, colocava-o mesmo num patamar superior ao de Pessoa. E nisso até acompanho-o, se nos ficarmos pelo ortónimo. Claro que considerações deste tipo partem também dos nossos gostos pessoais. Eu gosto da poesia de Pascoaes, de tão fria que é torna-se quente. Além do mais, o autor de Vida Etérea devota um carinho especial à Natureza, tendo-lhe esta oferecido um dos meus personagens poéticos preferidos, Marânus, a quem a Donzela, «enleada e perturbada», pergunta: «Quem és tu? De onde vens? Na tua fronte/Paira o vago crepúsculo infinito/Da distância...» (Pascoaes; Marânus).

 

Num post não dá para transmitir sequer um vislumbre da vitalidade dramática deste vate, pelo que opto por concentrar-me num poema mais curto. Publicadas em 1912, as Elegias inserem-se na corrente saudosista, fundada pelo próprio Pascoaes. A última, intitulada Elegia Final, realça algumas das suas principais características enquanto poeta:

 

ELEGIA FINAL

 

Trabalhei quanto pude a minha dor;

– Negro bloco marmóreo que me pesa

E me inunda de gélido suor.

 

Impus ao bruto mármore a beleza.

Minhas lágrimas de água amargurada

Suavizaram-lhe a trágica dureza.

 

E, ao ver a minha angústia, alevantada

Numa estátua perfeita, ao sol bendito,

Toquei-lhe! Estava inerte e congelada!

 

Choro, dentro de mim! Soluço e grito!

Sou, neste livro, palidez, quebranto.

A dor tão viva, no meu ser aflito,

É como cinza morta, neste canto.

 

Teixeira de Pascoaes; Elegias

 

A nível formal, este poema é muito bom. Desde logo, pela forma como está estruturado: três tercetos e uma quadra. Os tercetos obedecem a um padrão de rimas cruzadas, em que a segunda repete-se na estrofe seguinte (pesa/amargurada/bendito). Considero a quadra bastante curiosa, pois segue a mesma estrutura dos tercetos até entrar no quarto e último verso. No meu entender, Pascoaes não tinha intenção de terminar o poema assim. Basta olhar para os versos anteriores para vermos quatro pausas exclamadas no ritmo até então desenvolvido. O normal é vermos uma ou duas exclamações, não quatro. Num soneto presente nas Elegias (No Seu Túmulo) o poeta exclama por três vezes nos dois tercetos, mas são interjeições dirigidas ao luar, ao vento e às aves:

 

Ó luar da meia-noite, encantamento

Da sombra, vem cobri-lo! Ó doido vento,

Não grites, baixa a voz lamuriosa!

 

Silêncio, aves nocturnas do arvoredo!

Porque ele é pequenino e há-de ter medo,

Lá nos seios da terra tenebrosa.

 

Por seu turno, na Elegia Final descrevem-se acções e emoções do sujeito por intermédio de exclamações. É nítido que Pascoaes anda à procura de um final para o poema, que podia ter sido este:

 

Choro, dentro de mim! Soluço e grito!

Sou, neste livro, palidez, quebranto,

A dor tão viva, do meu ser aflito.

 

Porque não? Respeitava a ordem e era coerente... para mim, Pascoaes descobriu que podia concluir com uma antítese que quebrasse a ordem dos tercetos. A «dor tão viva» transforma-se em «cinza morta». Outra pista revela-nos o segundo verso da quadra («Sou, neste livro, palidez, quebranto»), um decassílabo sáfico a contrariar os heróicos que surgem ao longo do poema. Isto costuma acontecer quando um poeta não está disposto a comprometer o significado em detrimento do rigor formal. Se o quisesse manter, teria de prescindir da palavra «palidez», necessária ao contraste com a «dor tão viva», num efeito que acaba em «cinza morta». 

 

A nível temático, além da dor, temos a frustração na tessitura de contrastes que o poeta elabora («negro bloco marmóreo»/«gélido suor»/«Impus ao bruto mármore a beleza»/«estátua perfeita», mas «inerte e congelada»/«Choro, dentro de mim! Soluço e grito!»). Todavia, Pascoaes cria cortinas de fumo para esconder a oposição maior, entre a noite e o dia. A frieza de quem trabalha a sua dor durante a noite, buscando a perfeição, é substituída pelo confronto com a realidade, à luz do «sol bendito». Só nesse momento o poeta inteira-se do erro em que havia laborado, ao ver-se reduzido «neste livro» a «palidez, quebranto». A beleza da Elegia Final reside no desencontro entre o desejo e a realidade. Enquanto vai trabalhando a sua dor, vemos alguém frio e calculista, disposto a verter «lágrimas de água amargurada» para atenuar a «trágica dureza», talvez vista como demasiado linear. O cálculo sai-lhe furado, porque baseia-se noutra especulação impossível, a de atingir a perfeição. Gorados os seus intentos, a voz poética deixa o calculismo e mostra a sua fragilidade («Choro, dentro de mim! Soluço e grito!»), surpreendendo-se por ver que a «dor tão viva» no seu «ser aflito» termina «como cinza morta, neste canto». O poeta aprende que não pode trabalhar a dor, pois corre o risco de transformá-la numa natureza-morta. Seria a espontaneidade o caminho? Não creio. O maior obstáculo reside na incapacidade de exprimirmos todas as nossas emoções num livro. Trabalhar um sentimento frio, como é a dor, não muda o resultado. Apenas gela até destruir a vida que o frio conserva, tornando-a «cinza morta» – nem só o amor é fogo que arde sem se ver...

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