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Zibaldone

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03
Nov16

Tourada não é cultura

Francisco Freima

tourada.jpgSe para Camus a questão fundamental da filosofia era o suicídio, para nós, enquanto Portugueses, a grande questão cultural são as touradas. No entanto, se o suicídio permite uma discussão em torno do livre-arbítrio e do destino de cada pessoa, as touradas situam-se num contexto mais próximo dos debates sobre a escravatura. Tal como há duzentos anos haviam homens que punham em questão a própria legitimidade da pergunta, hoje em dia é nosso dever colocar em causa a definição de cultura que sustenta os argumentos dos aficionados.

 

O que é cultura? Segundo a UNESCO, «culture should be regarded as the set of distinctive spiritual, material, intellectual and emotional features of society or a social group, and that it encompasses, in addition to art and literature, lifestyles, ways of living together, value systems, traditions and beliefs.» Como é óbvio, nesta definição cabe tudo. Se eu fosse um causídico a defender o fim das touradas, argumentaria que elas já não correspondem aos valores da maioria do povo português. No entanto, esta linha de raciocínio levaria ao questionamento dessa maioria, pelo que se exigiria um referendo. Sendo contra o referendo de direitos, sejam eles de humanos ou de outros animais, teria de descartar esta visão da UNESCO, conciliadora o bastante para abarcar todo o tipo de sensibilidades e evitar a polémica. Descartando-a, declararia que os princípios nela enunciados serviriam unicamente para acomodar países mais atrasados em matéria de direitos, nomeadamente os do Médio Oriente e de África (não poderia a mutilação genital feminina ser considerada uma tradição?).

 

Assim, a luta cultural teria de ser travada no âmbito nacional, sem ingerências externas. Tomando esta posição, os abolicionistas neutralizariam o fascínio cultural que certas opiniões traduzem (mormente em relação a Hemingway) ao mesmo tempo que reivindicariam uma consciência verdadeiramente nacional para o seu movimento. Denunciando «o partido estrangeiro», apelaríamos de forma original a um povo pouco acostumado à mobilização. Estando em refluxo, os movimentos sociais veriam a sua causa ganhar fôlego junto da opinião pública, podendo inclusive constituir uma escola de valores para a nossa geração, sedenta de ideal. Daí que seja importante a participação dos intelectuais nesta luta, pois só dessa forma existirá um verdadeiro debate entre aficionados e abolicionistas. De outra forma, teremos a habitual cacofonia incapaz de estabelecer outra vitória que não a dos números. Para desmobilizar o adversário, convém ter a maioria no curto prazo e os argumentos no longo prazo. Foi essa falta de comparência na batalha das ideias que ditou a regressão da lei do aborto durante o anterior Governo. Na campanha anti-touradas, não se pode cair novamente no erro de permitir referendos. Interessa é vencer no espaço mediático, mantendo a percepção de que o tempo corre a favor daqueles que defendem a abolição. A haver referendo, qualquer ínfima percentagem que sustente a vigência das touradas permitirá o argumento do respeito pelas minorias, mesmo que à custa dos direitos dos animais. 

 

Convém por isso sermos como a cultura: dinâmicos. Se o caso Dreyfus provou alguma coisa, foi a de que podemos criar posições que liguem uma geração a diferentes barricadas sem cairmos na tentação de prender as futuras gerações nessas trincheiras. O dreyfusismo foi essencial para a derrota do anti-semitismo em solo francês, tornando-o residual a partir do fim da II Guerra Mundial (curiosamente, nas vésperas da guerra tínhamos Léon Blum a governar a França e Adolf Hitler na Alemanha). No dealbar da Guerra Fria, o anti-semitismo cedia o lugar ao estalinismo no banco dos réus (caso Victor Kravchenko, em 1949), dando origem às terceiras vias (Maoísmo, Nova Esquerda, Movimento dos Não-Alinhados).

 

Se tudo correr bem, livraremos as futuras gerações deste atavismo, deixando-lhes campo aberto para outras lutas. Cabe a nós transformar as touradas em visitas aos museus com os nossos filhos. De resto, é a única maneira de se tornarem cultura...

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