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Zibaldone

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09
Mai17

«Traições» à pátria

Francisco Freima

Ernest_em_Idaho_Lloyd-Arnold_Getty.jpgParece que Ernest Hemingway foi um espião do KGB. Ainda assim, o tema deste post é mais abrangente e centra-se na questão da lealdade que devemos (ou não) ao nosso país. Quando leio sobre pessoas que supostamente traíram as suas pátrias, costumo perguntar-me: será correcto utilizar o termo traição? Dependendo dos casos, em geral sou da opinião que não.

 

Ninguém escolhe a sua pátria. Os vínculos que estabelecemos com ela derivam mais da circunstância de termos nascido no seu território do que propriamente de uma comunhão ao nível dos objectivos, sejam eles políticos, económicos ou culturais. A socialização por via escolar costuma levar à identificação da maior parte das pessoas com o país, mas haverá sempre quem se sinta exilado na sua terra. Como podemos trair uma entidade à qual nunca jurámos fidelidade? Trair implica ter escolhido antes um dos lados, mas ninguém escolhe o seu país. Se eu tivesse estado no lugar do Hemingway, provavelmente teria feito o mesmo.

 

Segundo a História, um dos maiores traidores que já existiu foi Alcibíades. Confesso que nunca o vi como tal: nomeado para liderar a expedição contra Siracusa, foi acusado de impiedade por supostamente ter vandalizado estátuas do deus Hermes. O julgamento foi adiado enquanto a expedição prosseguia o seu caminho rumo à Sicília, mas, chegado ao destino, mandaram-no regressar a Atenas. Olhando agora para as coisas, e sabendo que ele foi julgado à revelia e condenado à morte, quem poderá dizer que ele traiu a sua pátria? Fez muito bem em ter fugido para Esparta, ficando por lá até ter rebentado o escândalo da sua relação adúltera com a rainha Timeia. Na iminência de mais uma condenação à morte, voltou a fugir para Atenas, que o recebeu e nomeou para o mais alto cargo político-militar da época: strategos autokrator. Quer dizer, a pátria que o havia sentenciado, vendo-se num momento de aperto, decidiu esquecer a anterior condenação à morte só para contar com o seu talento como general. Não tendo tido o impacto que os compatriotas esperavam (perdeu a Batalha de Éfeso), seria retirado do cargo e abandonaria de novo a sua terra, desta vez sem a ameaça de uma condenação no horizonte. Partiu então para a Pérsia, onde ficaria até ser (ele sim!) traído por Farnabazo, governador da Frígia que proporcionou as condições para que fosse assassinado por sicários ao serviço de Esparta. 

 

Disto tudo, além da ideia de que Alcibíades nunca encontrou a sua verdadeira casa, fica o absurdo de que as duas pátrias que ele «traiu» são hoje parte integrante do mesmo país: a Grécia. Talvez daqui a uns séculos olhemos para o mapa e vejamos que os EUA e os países da antiga URSS pertencem ao mesmo e único país do mundo: a Humanidade...

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