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Zibaldone

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05
Jan17

Transparência II

Francisco Freima

José Gomes Ferreira.jpgO último artigo de Pedro Tadeu no Diário de Notícias ecoa algumas das minhas próprias preocupações em relação à independência dos órgãos de comunicação social. «Os jornalistas devem fazer uma declaração de interesses pública?», pergunta Tadeu. Depois de se debruçar sobre as hipóteses de aumentar a lista de incompatibilidades ou a de um jornalista perder definitivamente a carteira profissional caso saia para outras funções, Pedro Tadeu conclui (e bem) que os jornalistas deviam preencher «regularmente uma declaração de interesses, voluntária, que abranja as influências ou ligações profissionais, contratuais, patronais, políticas, familiares, económicas, desportivas, culturais ou outras que podem, de alguma forma, directa ou indirectamente, influenciar o exercício da sua profissão.»

 

Se eu para escrever sobre política ou futebol sinto necessidade de declarar as minhas preferências, então um jornalista devia sentir isso a dobrar. Não faz sentido manterem essa fachada de «independência» quando, ao ler os textos, logo percebemos o pensamento subjacente. No entanto, há pessoas que podem não se aperceber disso, ou até o dito «jornalista independente» pode dar uma no cravo e outra na ferradura para ver se passa pelos intervalos da chuva. Há por aí muitos jornaleiros manhosos, que me deixam na dúvida sobre se são do PS ou do PSD, embora para mim a diferença seja mínima. Infelizmente, o parolismo pátrio confunde independência com uma espécie de abstenção militante ou com o «centrão». Os jornalistas lembram aqueles padres que não têm queda para o celibato, passando a vida a vigiarem-se contra as tentações da carne. No caso deles, é a tentação opinativa, o que é normal - quem muito se esforça por esconder a sua natureza acaba sempre por se ver traído pelos instintos. Tal como esses padres, que normalmente sucumbem e passam a levar uma vida dupla, os jornalistas, ao quererem ir contra a natureza, acabam por perder o pé, tornam-se fanáticos de esquerda ou de direita. Apesar disso, não admitem aquilo que são, têm medo de perder influência caso renunciem à «independência». O problema é que eles nunca  foram independentes. Para mim, é mais livre o Pedro Tadeu, que todos sabem ser do PCP, do que o José Gomes Ferreira, que todos sabem que é do PSD, embora o mesmo não o admita, certamente por medo de perder a aura de «independência».

 

Independência não é não ter opinião ou escondê-la. Independência é precisamente o contrário, é ter opinião formada e mesmo assim conseguir ver o outro lado da questão, conhecendo-lhe as virtudes e os defeitos. Até porque todos temos opinião, mesmo aqueles que dizem que não têm é porque não sabem que a têm. Há pessoas assim: dizem que não gostam de políticos nem de partidos, mas depois a sua conversa é todo um programa político. Infelizmente, quase ninguém se apercebe de que quando escolhe ir de carro ou de transportes públicos para o trabalho, está a tomar uma posição política; quando no supermercado opta por passar os produtos pela máquina em vez de ir à caixa, está a tomar uma posição política; quando olha para o aumento dos preços e não faz nada, ou vai apenas falar para o café, está a tomar uma posição política. Todos temos opiniões sobre tudo aquilo que conhecemos, logo, todos temos opiniões políticas. Os ignorantes desconhecem-nas apesar de as debitarem, os ressabiados escondem-nas para melhor cumprirem a missão de desinformarem.

 

O resto é treta. Mesmo as pessoas que não gostam dos partidos nem dos políticos e ficam em casa, estão a tomar uma posição política. Os mais esclarecidos serão anarquistas; os outros, a grande maioria, está contente com a situação, porque, já diz o ditado, quem cala consente.

 

Venham as declarações de interesses, venha a transparência.

 

PS - Ser independente é ver que no próprio DN acontecem coisas estranhas. Um colunista que não é da minha área política (apesar de lhe admirar o estilo irónico-truculento) foi afastado para dar lugar a Maria de Lurdes Rodrigues. Escusado dizer que a ex-ministra da Educação não serve sequer para dactilografar os textos de Alberto Gonçalves. Só em Portugal é que uma empresa prescinde de um colunista talentoso para promover uma medíocre...

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