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Zibaldone

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03
Jun16

Trombones

Francisco Freima

É incrível o que uma má experiência faz na percepção de uma pessoa... passo a explicar: quando era miúdo, o meu pai mandava-me ir comprar os seus jornais à quarta-feira (era o dia de folga dele). Normalmente, ia a duas papelarias muito perto de casa, mas houve um dia em que nenhuma das duas já tinha um dos jornais que ele lia. Nessa tarde, lembro-me de ter ido à outra papelaria próxima da minha casa, mas sem grande vontade. Os donos tinham fama de antipáticos e a minha irmã, sempre lesta a dar alcunhas sugestivas, chamava-lhes de «trombones». Como não era aquele tipo de miúdo assustadiço, encarei a coisa pelo lado da aventura e fui lá – já nos jogos de bola era igual, quando partíamos um vidro ou a bola ia parar a algum quintal, lá ia o Francisco tocar à porta.

 

A operação correu (muito) bem, fui para casa feliz da vida. Entreguei os jornais ao meu pai e, quando lhe fui a dar o troco, exibi um sorriso trocista: a mulher enganara-se, dera dinheiro a mais! O meu pai olhou para mim e sorriu também. A surpresa veio logo a seguir: pegou na lista telefónica, procurou o número da papelaria e telefonou para lá. «Mas porquê?», disse eu, indignado «ela é má, pai, ninguém gosta deles!». O meu pai não ligou e lá ligou a quem devia. Quando disse que tinha havido um engano com o troco, do outro lado responderam-lhe: «É o que dá mandar crianças fazer o trabalho de adultos!». Mas quando disse que me tinham dado dinheiro a mais, a atitude mudou completamente e a mulher tornou-se logo a simpatia em pessoa (ainda hoje o meu pai ri-se quando conta isto). Enfim, quem não estava para risotas era eu: o meu pai mandou-me ir lá devolver a bagatela que considerava ser minha por direito (uns cento e pouco escudos que eu iria estoirar no Videokina, em fotocópias do Dragon Ball). Quando lá cheguei, a mulher, toda simpatia, recebeu o dinheiro, mandando cumprimentos ao meu «paizinho». Fui a remoer a injustiça daquilo tudo, arrastando os pés até casa. Mal pus a chave na porta, o meu pai abriu-a e eu sofri o maior ataque de beijinhos e cócegas de que tenho memória. Passou-me logo o mau humor, pois nessas alturas sentia que era um privilegiado por ter um pai assim. 

 

Isto para dizer que ontem, antes de ir ao centro de formação, tive de tirar fotocópias de alguns documentos. E a única papelaria que agora tira fotocópias aqui na zona é... pois, a dos «trombones». Passados tantos anos, entrei e fui atendido por uma empregada simpática. A dona estava ao telefone (obviamente, não me reconheceu). Quando saí, fiquei a pensar nos efeitos duradouros que uma péssima impressão pode deixar num cliente.

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