Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Zibaldone

Zibaldone

09
Mai16

Ulrike Meinhof

Francisco Freima

Ulrike Meinhof.jpgPassam hoje quarenta anos do assassinato de Ulrike Meinhof numa prisão alemã. Jornalista conceituada, foi uma das principais teóricas da Nova Esquerda, integrando posteriormente a Fracção do Exército Vermelho. Os seus artigos na revista Konkret marcaram toda uma geração, mantendo-se Ulrike como símbolo da liberdade até aos dias de hoje. 

 

Deixo-vos com um artigo dela, escrito em 1968, durante a invasão da Checoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia:

 

HÁ QUE REPENSAR O SHOCK

 

«A consternação é total. A esquerda europeia foi pró-soviética até às agitações estudantis dos últimos anos. Não o era acriticamente, sem reservas, mas sim de um modo suficientemente inequívoco para poder distanciar-se sempre da crítica burguesa à União Soviética.

 

A crise húngara de 1956 rompeu com a continuidade disso. Os partidos comunistas da Europa Ocidental sofreram, então, uma desgarrada tensão interna, mas as reacções à crise do Próximo Oriente de 1967 mostraram ainda a existência de uma Internacional de orientação pró-soviética. Se bem que já então se pudesse entender - precisamente então, porque a afectividade das reacções foi mais intensa que a provocada pela guerra do Vietname e o conflito sino-soviético - que a reacção e o socialismo já não se podem reduzir ao par de conceitos política soviética/política anti-soviética.

 

Em 21 de Agosto de 1968, a esquerda europeia acabou com a sua solidariedade, a sua simpatia, o seu agradecimento relativamente à União Soviética, na qualidade de primeiro país socialista, de Estado que derrotou o fascismo alemão em Estalinegrado. 

 

A televisão alemã pôde dar-se ao luxo de organizar uma indagação junto dos partidos comunistas da Europa Ocidental e obter a resposta que queria transmitir: indignação, tristeza, condenação da política soviética.

 

No telejornal, sucediam-se, sem interrupção, os protestos dos estudantes e os dos funcionários e governantes de Berlim e Bona. E o correspondente, em Bona, da Televisão, pôde transmitir, satisfeito, a notícia: a polícia e os estudantes tinham estado frente a frente, junto à embaixada soviética, sem se chocarem em nenhum momento. Os protestos eram morais e impotentes: foram integrados e não podiam articular-se. Mas há que colocar a questão de se saber se o que foi destruído brutalmente, em Praga, sem sentimentos, era só um idílio inconsistente.

 

O que se chamou Primavera de Praga era a libertação da pressão soviético-estalinista. Em Praga, houve, durante pouco tempo, liberdade de Imprensa e romperam-se os tabus próprios duma sociedade do tipo da checoslovaca, o tabu do comércio mundial, a inserção em mercados capitalistas, uma política de credibilidade para com o Ocidente. Em Praga, difundiu-se um pragmatismo que, sem dúvida, teve de ser um alívio, porque permitia a realização de necessidades imediatas e também a liberdade de cada um dizer abertamente a sua opinião, fosse ela verdadeira ou falsa, inteligente ou idiota, tal qual fosse. E, igualmente, a necessidade de melhor aprovisionamento dos bens de consumo, de divertimentos inteligentes e apolíticos; a necessidade de autoconsciência nacional, de independência. O sentimento de felicidade, que certamente teve de difundir-se na Checoslováquia nestes últimos meses, dava razão a um anticomunismo obtuso, mas, sobretudo, era um indício da pressão sob a qual se tinha vivido até então; também indicava quão reduzida é a eficácia dos intentos estalinistas de politização mediante a aglutinação e a propaganda. A ingenuidade com que se falava de um socialismo democrático de tipo novo, de entendimento com as Igrejas, de política anti-imperialista, de uma nova formulação do marxismo sem se dizer material e exactamente no que se pensava, a ingenuidade com que se pensava poder executar-se um processo de democratização a partir de cima, também essa ingenuidade é, provavelmente, um produto da despolitização massiva, por força da política estalinista.

 

Criam que lhes era possível realizar, sem luta, um processo de democratização, e tiveram de abandoná-lo sem lutar. Provavelmente, era essa a ilusão dos checoslovacos e é possível que tão-pouco noutros países haja sido digerido. Era a ilusão de se libertarem da pressão soviética, com a euforia - nascida do impulso dessa libertação - de que, sobre a base de um são pragmatismo, tudo podia conseguir-se tranquilamente, sem intromissão do contexto internacional, sem movimento revolucionário, sem dolorosos processos de aprendizagem, sem teoria.

 

Há que perguntar se, por exemplo, o abandono da função dirigente do Partido Comunista, num país socialista, se pode executar realmente, diminuindo apenas o aparato do poder e admitindo no partido as massas aspirantes, e se a participação das massas na política se pode conseguir mediante campanhas de assinaturas e agitação pela Rádio e TV. Ou se um processo de democratização real, anti-imperialista e que se aguente no campo internacional não exige, além disso, novas formas de organização, uma nova estrutura do poder, uma politização das massas que possa expressar-se em estruturas consultivas, em auto-organização dessas massas. Há que perguntar se a solidão da República Socialista da Checoslováquia naquele dia, o luto e a depressão que possuíram os seres humanos daquele país, não têm a ver com o facto de que levaram a cabo a sua parcial separação da União Soviética, sem internacionalismo, sem uma palavra mais do que antes sobre a guerra do Vietname, sem se comprometerem com o Terceiro Mundo (por seu turno, não solidário).

 

Há que perguntar se os checos não se afastavam da União Soviética numa mesma direcção que a União Soviética empreendeu, se a intervenção soviética não é um acto de autoconhecimento, uma intenção de adiantar-se uma vez mais à crítica chinesa ou de escutá-la e refrear a cisão do campo socialista.

 

É difícil descobrir a racionalidade da conduta soviética; moralmente, é condenável, mas isso não é dizer muito. Há que repensar o Shock

 

Ulrike Meinhof, Contraviolência (trad. Vítor Serra), pp. 219-22; Edições Alfaómega

Antiguidades

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D

Bloguista

foto do autor