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Zibaldone

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15
Jun16

Vladimir Maiakóvski

Francisco Freima

Vladimir Mayakóvski.jpgSe Rabelais tivesse adoptado um filho, penso que Maiakóvski seria o candidato ideal. Pese os séculos de distância, há no poeta soviético muito de Pantagruel. A sua ânsia de mudança e o seu ímpeto iconoclasta varreram por completo a cena literária russa, que ainda hoje deve estar atordoada com os golpes do génio.

 

Tudo em Maiakóvski é grande: os amores, as metáforas, os sentimentos, as polémicas... Ninguém ficou indiferente a este georgiano, um gigante com quase dois metros de altura, apóstolo do Futurismo, pintor/actor ocasional, poeta e revolucionário a tempo inteiro. Não é por acaso que em quase todas as listas sobre os melhores poetas do século XX, o nome dele aparece, geralmente no topo. 

 

Para ficarem com uma ideia da sua grandeza, transcrevo o prólogo de a Flauta-Vértebra:

 

A todas vocês,

que eu amei e que eu amo,

Ícones guardados num coração-caverna,

como quem num banquete ergue a taça e celebra,

repleto de versos levanto meu crânio.

 

Penso, mais de uma vez:

seria melhor talvez

pôr-me o ponto final de um balaço.

Em todo caso

eu

hoje vou dar meu concerto de adeus.

 

Memória!

Convoca aos salões do cérebro

um renque inumerável de amadas.

Verte o riso de pupila em pupila,

veste a noite de núpcias passadas.

De corpo a corpo verta a alegria.

Esta noite ficará na História.

Hoje executarei meus versos

na flauta de minhas próprias vértebras.

 

Vladimir Maiakóvski, Poemas (trad. Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)

 

Neste excerto, encontramos o melhor Maiakóvski: iconoclastia («ícones guardados no meu coração-caverna»), imagens inusitadas («repleto de versos levanto meu crânio»), metáforas («salões do cérebro») e mais imagens imprevistas («hoje executarei meus versos/na flauta de minhas próprias vértebras»). Dono de uma prodigiosa imaginação, a sua originalidade deixa qualquer um de boca aberta. Quem se lembraria de honrar as suas amadas com um recital tocado nas próprias vértebras? Aquilo que num poeta medíocre facilmente cairia no registo macabro, em Maiakóvski transfigura-se num sumptuoso banquete, onde o grotesco ganha certa pátina renascentista (Hieronymus Bosch que o diga). A própria alegria encontra-se contagiada pela loucura erasmiana, quase roçando a pantomina, não soubéssemos nós que o poeta fora bastante sincero ao escrever estes versos.

 

Efectivamente, passados quinze anos (este prólogo é de 1915), Maiakóvski deu um tiro no seu coração. Morria assim o maior poeta russo desde Alexander Pushkin.

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