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Zibaldone

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08
Nov16

Web Dummit

Francisco Freima

Um ditado na contra-mão do enunciado, mas na paralela do sentido, já pode dizer que santos de fora fazem milagres. A realização da Web Summit em Lisboa aparenta ser um desses raros momentos de unanimismo nacional: que é bom para o país, que se vão fazer muitos negócios, que os restaurantes vão fechar de madrugada, que seremos a capital tecnológica da Europa.

 

Detesto ser desmancha-prazeres, só que à excepção do previsto para a restauração, poucos benefícios trará o certame. Primeiro, porque os organizadores da Web Summit não querem saber de Portugal para nada, apenas viram que o clima é melhor do que na Irlanda, que se apanham boas ondas e os serviços são baratos. Segundo, porque vem mergulhar (ainda mais) o país nas panaceias da economia digital. Terceiro, porque se nos estamos a preparar para alguma coisa, é para sermos a capital europeia do croquete e do rissol. 

 

Os Portugueses têm embarcado na patetice, o que até é normal: num país encharcado de propaganda sobre o empreendedorismo, o próprio Governo acaba vítima desse condicionamento mental. Ontem, por exemplo, tivemos um secretário de Estado a referir-se a estes empresários como as novas estrelas rock. Tendo em conta que a mensagem deles resume-se a lucro, ganância e tecnocracia, talvez fosse melhor ter ficado calado. Já a presença de Durão Barroso consubstancia o pensamento (ou falta dele) dos participantes. Alguém minimamente politizado sabe que Durão é um inactivo tóxico que o Goldman Sachs vai utilizando para contaminar a juventude. Afinal, ele é o retrato do capitalismo moderno: o político que virou tecnocrata corrupto ao serviço dos mais poderosos. A sua mensagem assenta nos benefícios da acomodação ao sistema, de que não vale a pena lutar por um mundo melhor, pois basta estarmos do lado dos mais fortes para evitar maçadas e sermos hedonistas. Nesta equação, a tecnologia é somente um instrumento de alienação. Crianças grandes com brinquedos caros tendem a produzir mais selfies do que ideias.

 

Por último, se há coisa que a história portuguesa demonstra é que o investimento privado nunca foi grande impulsionador da economia. Pelo contrário, foi sempre o investimento público a dinamizá-la, o que é lógico num país com uma minoria de ricos medrosos e uma maioria sem dinheiro para concretizar ideias. A conversa do empreendedorismo lembra-me um sketch dos Gato Fedorento, em que três Meireles com paus vão combater um exército de trinta mil anões munidos de canhões, metralhadoras e mísseis. Podemos ser melhores que os outros em termos de criatividade. Sem capital, não vamos lá.

2 comentários

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    Francisco Freima 08.11.2016 20:05

    Bem visto
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